sexta-feira, 10 de setembro de 2010

Na tela



“Depois não vai passar a gente de novo não?” pergunta o neto de Manuelzão Marco Túlio na seção de cinema em Andrequicé. “E depois que acabar, aí acaba?”, insiste. Ele e a colega de sala Maria Eduarda foram a sensação do filme da cidade. “Não é assim que começa”, diz Maria Eduarda para Marco Túlio no filme. É sim, vamos começar do refrão mesmo, continuam os dois discutindo na tela. O Marco Túlio ri e se diverte do Marco Túlio do vídeo. Na vida real, ele convive com as brincadeiras dos colegas. “Falta um parafuso nele, liga não”, brinca a coleguinha Carol. “Você é muito bonita”, responde Marco Túlio.
As chacotas e as risadinhas vêm dessa inventividade. Ele adora misturar realidade com ficção. Quando ele conta o trecho de Manuelzão e Miguilim, ele vai misturando com seus pensamentos. “Vamos buscar a Maria Eduarda?”, eu pedi para ele me levar até a casa dela. “Eu posso ir lá, posso ir até o Rio de Janeiro também”, ele inventa e segue comigo até a casa da amiga. O caminho até lá foi de muitas interrupções, o pensamento de MarcoTúlio vaga demais, fica difícil acompanhar os seus passos agitados e seus pensamentos desconexos.

A Maria Eduarda da tela é altiva. Sabe as cantigas de cor e não se intimida com a câmera. Mesmo com apenas cinco anos é capaz de nos levar na conversa. Na vida real, no sofá da sala, ela estava acuada. Por pouco não foi ver a si mesma na tela de cinema. Chegamos na casa dela e eu insisti com seus pais para que ela fosse conosco. “Pode ir Maria Eduarda”, responde o pai. Instantaneamente, ela abre um sorriso. A mãe diz que vai também e pergunta se vai isso vai demorar. Os irmãos menores ficam chorando, querem ir, mas o pai impede. “A Maria Eduarda ainda faz parte do grupo de contadores?”, eu pergunto. “Faz não”, responde a mãe brevemente, preocupada com a janta que deixou de fazer.

quinta-feira, 9 de setembro de 2010

ver com os ouvidos



“A minha maneira eu vejo, com o coração e o ouvido. O que eu não consigo entender Denise explica.” Ningo vendia laranja, juntava dinheiro e gastava no cinema. Antigamente, em Felixlândia, quando o cinema era dos ciganos, ou funcionava na paróquia da igreja, Ningo ainda tinha sua visão. Assistia cinema com os olhos, se encantava com as imagens em movimento. Hoje, durante a exibição de cinema na praça de Felixlândia, a sensação é outra. Ningo já não assiste com os olhos, ele aguça os ouvidos, imagina as imagens, e conta com a ajuda da esposa que em momento nenhum deixa de segurar suas mãos.

Quando tem muita fala, quando a narrativa é rápida, Ningo vai criando tudo em sua mente e compreende melhor o filme. Mas quando o diálogo é pouco, quando as imagens duram, ele pede a esposa para descrever tudo. É nesse exercício de oralidade que Ningo vai montando seu próprio filme. Assim ele reinventa uma nova forma de estar no mundo, depois do acidente que o fez enxergar tudo de outra forma.

Conversando com Ningo antes da seção de cinema, seu Neguinho vai dando detalhes da época em que os ciganos exibiam cinema na cidade. Talvez seja a itinerância do Cinema no rio que tenha suscitado essa época quando o cinema era como o circo, chegava e movimentava a comunidade que se preparava para o evento. “Na época custava cinco cruzeiros, o que equivale hoje há 50 reais. Era caro, mas a gente juntava dinheiro e não deixava de ir”, comenta. E seu Neguinho tava lá na praça antes da seção começar. Atento a todos os detalhes e à movimentação que os “ciganos” do São Francisco provocam nas cidades por onde passam. A tela inflável provoca curiosidade, a pipoca de graça, cadeiras e o projetor vão tomando conta da praça na frente da igreja. Magia capaz de envolver quem passa por ali.

“Você sabe qual é a cidade que acabou antes de começar?” pergunta Neguinho em referência ao curta metragem “O Jumento Santo e a Cidade que Acabou Antes de Começar” que foi exibido no dia. Ninguém soube responder e Neguinho se gabou do fato de ser analfabeto e conhecer tanta coisa nesse mundo.

De volta à magia

Desde 1968 que o cinema deixou de fazer parte do cotidiano de Felixlândia. A secretária de cultura da cidade, Leidélia, se lembra da época em que o cinema ficava num galpão perto da sua casa, logo quando ele deixou de se localizar na paróquia da cidade. “A gente subia no basculante para assistir os filmes. Um único filme chegava a ficar meses em cartaz, por isso a gente assistia o mesmo umas cinco vezes”, lembra.

Ainda apaixonada por cinema, Leidélia insistiu até conseguir voltar com o cinema para a cidade. Através do projeto Cine mais Cultura do Ministério da Cultura, ela conseguiu aprovar um projeto para criar um cineclube em Felixlândia. Ela comenta sobre o despertar que o projeto Cinema no Rio teve para a iniciativa de criação do cineclube. “Todo mundo está confundindo o Projeto Cinema no Rio com o Cineclube Feliz Arte”, comenta. Confusão boa, que pode fazer o cineclube lotar de gente da mesma forma como a praça da cidade.

quarta-feira, 8 de setembro de 2010

O que chamamos de silêncio



Seu Totó se lembra perfeitamente do código Morse do telégrafo. O linha-ponto-linha transmitia mensagens importantes, antecipava barulhos e era a comunicação da importante Carinhanha, rota de passagem entre Minas e Bahia. Seu Poliondas é capaz de ouvir, reproduzir, imaginar e recontar os barulhos em Carinhanha, o dia em que coronel Duke retomou o poder na cidade juntamente com Getúlio Vargas. Dona Zetinha cantou os apitos em Pirapora. Cada embarcação tinha sonoridade própria, uma mais grandiosa, soberba, grave, alegre. Era assim que as pessoas sabiam quando alguém estava para chegar. Era assim que a cidade se movimentava e lotava os portos a beira do São Francisco.

A família marolinha vive colhendo frutos de cerrado.Tem hora para colher, hora para descascar o baru e as cantigas durante a dura jornada da família. Seu Tezinho é o celeiro de Manga. "Meu mestre foi a precisão, o que me fez aprender meu ofício", avisa. Ele também foi pescador e nos conta de um rio do passado: "Dava umas arribada de peixe que chegava a trovejar. Hoje não tem uma piaba, por isso não pesco mais".

Todas essas histórias estão lá guardadas na memória que um dia se apaga como tudo que não sobrevive para sempre. A oralidade é o registro mais comum em muitas comunidades a beira do São Francisco. Mas uma coisa me angustiava, o silêncio não pode ser compatível com tanta riqueza.

O silêncio na rua de Carinhanha, o silêncio da televisão no quilombo Tomé Nunes me fez lembrar da frase de Clarice: "O que ouvimos e chamamos de silêncio?" Será que essas histórias permanecerão nas comunidades se aparentemente os mais jovens ou se a própria comunidade parece não escutar tanta memória? Mesmo assim todo esse imaginário grita e constrói a história dessas cidades. É o lastro, a origem de um universo que é único em cada uma dessas cidades que margeiam o São Francisco.

terça-feira, 7 de setembro de 2010

Água pega fogo



Por Amanda Horta
Finado o caos, nós já dentro da balsa, o filme de Cachoeira do Manteiga começa a surgir sobre o rio que marca a divisa dos dois municípios, através das histórias que já ouvimos sobre a Fazendo Pé do Morro, onde haveria um poço onde água pega fogo.

Chegando na cidade, o caso, que soa como uma contradição dos termos – pois que água, bem sei, sempre serviu para apagar as chamas daquilo que queima – me foi esclarecido, entre risos, por Sr Lili, antigo morador da cidade. Diz o lavrador que a água sai acompanhada de um gás, que mantém a chama acesa a despeito da umidade. Se muitos já disseram ser encanto, ou se já se atribuíram poderes fazendo fogo brotar da água com ares de passo de mágica, tudo hoje está esclarecido, e os moradores acham graça do estranho fenômeno da natureza.

Seu João Bem-te-vi, no alto de seus 79 anos, lembra-se bem dos tempos em que a ciência ainda não tapava os abismos da compreensão. Tempo de muito peixe no rio e poucas casas ali, quando Cachoeira do Manteiga nem venda tinha, e o comércio descia o rio de lancha, vindo de Pirapora. Seu filho, Zé Bem-te-vi, herdou o nome de pássaro e a rede de pesca, e busca no peixe parte de seu sustento, tal qual seu pai nos dias antigos.

segunda-feira, 6 de setembro de 2010

A balsa



Por Amanda Horta
Deixar uma cidade traz sempre certa melancolia, como se criássemos uma sala no peito para então deixá-la vazia, no paradoxo entre o transbordar de lembrança e o poço sem fundo do desejo de mais.

A balsa que nos levaria de Ponto Chique à próxima cidade tardou quase uma hora e, na beira do rio, a espera e o silêncio foram se alargando enquanto o sol já não cravava mais o meio do dia.

Mas entre nós, a balsa, e o outro lado do rio, não tinha só o silêncio sagrado que memora a saudade: tinha também um caminhão, um gigante com tanta cerveja por cima, que foi entalar o nosso caminho.

Pesando a balsa pr’um lado, o tal caminhão cravou-se no chão, e não tinha homem, madeira ou macaco, que o fizesse entrar ou sair, e nossa balsa, grudada na margem de cá, perdeu de súbito a serventia de ponte.

E foi um “Deus-nos-acuda”: puxa o carro pra cá, pesa a balsa daqui, o dia caindo, todo mundo entalado olhando atônito o caminhão de cerveja quente – festa futura de alguém – fazer conosco este atraso de vida.

E o sol se esconde no chão, e surge a estrela Dalva, e depois de um monte de reza – e um tanto de esforço também – o caminhão solta os dentes da beira, e a balsa atravessa de novo em silêncio, deixando n’outra margem a balbúrdia da situação.