sexta-feira, 20 de agosto de 2010

Casa da careta



Um homem de bigode e bocas exageradas está lá no topo de uma construção antiga. Os traços têm um quê de deboche. As linhas não me fazem lembrar da arquitetura típica de uns 200 anos atrás. Como uma caricatura exagerada, essa construção parece uma aberração bem no centro de Carinhanha na Bahia. Do outro lado, outro prédio da mesma época, com linhas clássicas e anjos que nos remetem ao barroco. O motivo desse contraste? Bom, para isso também temos história.

Dois artistas disputavam quem era o mais talentoso. Com uma cortina que cobria o processo de feitura dos dois prédios, a cidade aguardava quem seria o melhor. No dia da inauguração das duas construções, duas bandas, cada qual representando um artista, se preparava para tocar. O artista português mostrou sua obra: dois anjos ornavam com detalhes bem barrocos a fachada da construção. Quando foi a vez do espanhol, uma surpresa. Tava lá entalhado no alto da segunda construção o rosto do artista português. Com bigode, boca desproporcional e olhos arregalados, um retrato distorcido do rival. Dois peixes e duas aves terminavam o ornamento. Como o senso de humor naquela época não era o mesmo, o português desapareceu e nunca mais voltou. Pensando bem, até que as pessoas se divertiram já que o espanhol foi eleito o melhor artista da região.

Se a rivalidade naquela época se refletia em dualidades, hoje parece que isso se revela no descontentamento das pessoas da cidade com a política de um modo geral. O que acaba gerando uma não valorização das manifestações, cultura e patrimônio local. Carol de 18 anos é cantora, compositora dona de uma voz que se desloca do grave para o agudo sem nenhuma distorção. Se apresenta às vezes, mas ainda tímida tenta buscar o seu lugar.

O grupo de teatro da cidade busca espaço, estrutura, aplausos e reconhecimento dos moradores de Carinhanha. Se nas outras cidades da região o grupo é aclamado, na sua terra as coisas são diferentes. Mesmo assim, não negam suas raízes. Cícero é o diretor e autor das peças e busca inspiração na sua cidade, nos seus dilemas, na vida do interior. Enquanto Inácio aconselha o grupo e diz, durante a gravação, que essas dificuldades estão em todo lugar, Dona Ana nascida em 1923 aparece na porta e diz baixinho: “Ninguém é profeta na sua terra”. De mansinho ela virou a personagem principal do filme. Brincou com o microfone. “Cês num tão gravando essas bobagens não”, disse. Cantou cantigas, recitou poema e deixou todo mundo impressionado. Incusive o pessoal do teatro que sempre ensaiava na casa de D. Ana, mas que nunca parou para ouvir suas histórias. Ás vezes é na frente da câmera mesmo que a gente se reconhece.

3 comentários:

  1. Eu estou impressionado com a qualidade literária de todos os textos da Pâmela. Parabéns !!! Maravilhoso o Blog.

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