quinta-feira, 30 de setembro de 2010

Gravatas vermelhas

André Fossati



“Bom o filme e bem editado”. Eu e o pescador Vicente assistimos o filme juntos. Em Malhada na Bahia os pescadores, as crianças, os idosos, adolescentes, trabalhadores rurais, todo mundo se ajeitou para assistir a sessão de cinema na praça. Vicente comentava o filme o tempo todo. “Não é o valor, é o benefício”, ele corrige a entrevista com o quilombola que explicava a origem da comunidade. “Eu também vivo nesse engano”, ele diz. Vicente tem uma terra de quatro hectares na beira do rio. Tanto ele como o pessoal do filme espera a cheia vir, molhar a terra para plantar. “Mas eu não perdi nenhum ano”, o pescador se orgulha de nunca ter perdido plantação nenhuma por causa das enchentes.

Depois do filme ele reflete: “todo mundo precisa de terra para sua honra”. Vicente entendeu bem a narrativa do quilombo e a importância da terra para a vida dessas pessoas que sabem muito o que é cultivar e, para ele também, que sempre levou a vida com a terra e com o rio.

Encontrei Vicente enquanto conversava com o pescador Tomás. Ele se aproximou: “é melhor conversar do que assistir TV”. “Tomás está me contando a história de João Duke”, eu disse. E Vicente respondeu que gostaria de ouvir as histórias também . Vicente acha o cinema importante demais e gosta de ver os causos dos antigos registrados. Assim, os dois pescadores conversam e me contam de um tempo que não volta mais.

Tomás era filho do pistoleiro que trabalhava para o coronel João Duke. O pai esteve presente defendendo o coronel na sua luta contra o capitão Alkimim e em sua disputa pela região de Malhada e Carinhanha. Dentro do rio três embarcações com os revoltosos de camisa preta e gravata vermelha. O pai de Tomás estava atocaiado no São Francisco. Numa ilha que Tomás me aponta com o dedo. Ele se junta com os revoltosos e vence a disputa contra Alkimim. Capitão Duke assume o poder da região e pega de volta sua mulher que havia sido roubada pelo adversário. “Eles contam que no dia do tiroteio, quem estava em Malhada só conseguia ver uma nuvem de fumaça vindo de Carinhanha”, diz. As duas cidades são divididas pelo rio.

Rio que hoje se atravessa a pé. Tomás me diz que nenhum ponto do São Francisco, nessa região, tem fundura. O pai de Tomás já havia lhe avisado, ainda num tempo de rio cheio e de peixe com abundância. Para ele, o que sustentava o rio era a veia de água que vinha da Serra da Canastra, região da nascente do São Francisco. “È como a veia que vem do coração. Se cortar a gente morre”, compara. O problema, de acordo com Tomás, é que construíram a represa por cima da veia do rio. Hoje seu destino é a morte e a rasura.
André Fossati


Tomás e Vicente se lembram dos vapores e das festas nos antigos portos. “O apito do vapor Barão era tão bonito que as mulheres choravam quando o vapor chegava”, conta Vicente com a nostalgia estampada nos olhos. Enquanto os velhos se lembram do rio e da época que não existe mais, as crianças se divertem em frente da embarcação Luminar que traz o pessoal do cinema, como eles mesmo dizem.

Túlio, com onze anos, passa a manhã tentando se comunicar com os tripulantes da embarcação que até se parece com os vapores da época. Faz as vezes para chamar a atenção. Canta música do Chitãozinho e Xororó sobre o rio, paga de fotografo com a câmera de Cris. E diz: “Você vai escrever sobre mim também, né?”. Túlio tão criança e já se preocupa em ter a sua vida registrada.

quarta-feira, 29 de setembro de 2010

O filme que não vi

Pâmilla Vilas Boas


"Medo de morrer todo mundo tem", disse Domingos durante a pré-produção do filme da cidade. O filme ficou sendo homenagem ao barbeiro que cortava cabelo do temido coronel João Pereira. Se o coronel desagradasse do corte, o barbeiro já não estaria mais aqui para contar a história.

Domingos aprendeu o ofício como olheiro mesmo. E exibiu as ferramentas antigas de cortar cabelo. A cadeira do antigo salão foi ele mesmo que fez. A barbearia estava lá intacta com todos os materiais que lembram um outro tempo. Domingos já não atuava mais como barbeiro, mas mantinha tudo como era antigamente. "O senhor teve filhos?", perguntamos. "Na base de uns 20. Moram nesse mundo aí”, ele responde com a voz baixa e apaziguadora. Domingos falava da sua vida com tranqüilidade, sem muitas exaltações.

Ao ver a barbearia tão intacta e tão representativa da época em que Manga era cidade pequena e em que os cortes de cabelo eram tão diferentes, o corte americano, por exemplo, a vontade é que essa imagem permanecesse para sempre. E que Domingos estivesse sempre lá, manuseando os equipamentos antigos e guardando a memória dessa profissão.

Mas o barbeiro morreu, uma semana depois das filmagens. Assim que chegamos em Manga, fomos procurá-lo para entregar o DVD com o filme da cidade e recebemos a notícia. A casa de Domingos estava fechada e a barbearia sem o seu grande zelador. A vida não é igual ao cinema e não pôde esperar o filme ficar pronto. Procuramos seus familiares para entregar o DVD que iria ser assistido por Domingos. Encontramos a irmã de criação do barbeiro: "Ele vai aparecer, mas está morto", disse. Convidamos ela para a sessão de cinema e dissemos que o filme era homenagem ao barbeiro. Procurei, mas não encontrei seus familiares na hora do filme.

Seu Antero foi, chegou bem cedo. Ele era o prático de Manga, farmacêutico e médico ao mesmo tempo e amigo de Domingos. Seu Antero parecia ansioso para ver o filme que homenageava o amigo e para se ver na telona. Ele também foi entrevistado. Com idade bem avançada, a morte não parece preocupá-lo muito. Ele fica satisfeito ao ver ele e a mulher na telona. Fica com a imagem do amigo em sua barbearia e admira Seu Tezinho; o homem fazedor de cela. “Seu Tezinho fala muito bem”, comenta Antero. A cidade deu boas risadas com o jeito bem humorado e crítico da fala de Tezinho. “Seu Domingos adorava um carnaval. Rodava feito égua no meio do povo. Hoje não roda mais”, disse Tezinho na telona, ainda sem saber que seu amigo agora é só memória.

terça-feira, 28 de setembro de 2010

A feiticeira dos santos

André Fossati

Lavadeiras na beira do rio. Contrariam a profecia, lavam roupa no dia de sábado. Dona Maria passa o ramo, canta cantiga da mulher rendeira, conversa com o papagaio. A igreja é antiga, traz a tona a memória do passado. O líder quilombola conta as origens de Matias Cardoso enquanto escuto as risadas descontroladas do bêbado da cidade. Ele se contorce, conversa sozinho e dá gargalhadas ouvindo nossa conversa séria. No meio de tudo, um casamento compõe a cena. A noiva era belíssima e caminhava até a igreja com seu vestido de cauda longa.

O dia em Matias Cardoso foi de coincidências mágicas. Um dia de acontecimentos que parece cena de filme desconexo. Nessa cidade mística à beira do São Francisco, as casas são coladas. Não se sabe onde começa e termina. As paredes geminadas e as cores vivas têm o papel de distinguir um lugar do outro. Caminhávamos a passos lentos, o silêncio era para compreender o que a razão não alcança. “Foi Deus quem mandou vocês aqui. Vocês não me conhecem como me encontraram?”, pergunta Maria.

Ouvimos alguém cantar, nos aproximamos. Ela cantava e dançava na rua. Chegamos perto e mostramos interesse. Dona Maria nos convida para entrar. A casa é empoeirada e cheia de animais. Maria divide sua morada com muitos cachorros, galinhas, gatos e pintinhos. Seu grande companheiro é o papagaio que parece conversar sem imitar ninguém. Ele pede um café e Maria toma num copo junto com o papagaio. Adornando a pequena casa, muitos quadros de santos e imagens sacras. “Vocês vieram passar o ramo?” Não entendemos a pergunta. “Já sei vocês são crentes”, conclui.

Dona Maria se desculpa pela sujeira. “Não varri a casa ontem, por que não se pode varrer dia de sexta. E se você varre os passos de alguém nesse dia, essa pessoa nunca mais volta”, conta. Ela se preocupa com as roupas sujas. Não se lava roupa dia de sábado. Sábado é dia de Nossa Senhora. Ela conta da mulher que desrespeitou a profecia e ficou pregada na beira do rio. Quando termina o caso, as lavadeiras que conversávamos anteriormente sobem a rua. Elas é que não sabem o risco de desrespeitar a profecia.

A gente conversa sobre o dia de Nossa Senhora e no mesmo instante assistimos uma comitiva caminhando pela cidade com o estandarte da santa. Elas param na porta de Maria e pedem uma oferenda. Maria procura o que tem em casa, mas não encontra nenhum saco de farinha, feijão, fubá. Procura cinco reais e não tem. A gente tira uma nota, entrega para a comitiva e Maria dá um sorriso. A sua conversa prenuncia os acontecimentos.
Amanda Horta


As profecias

A fala de Maria é desconexa misturando as profecias com os casos e fatos do cotidiano. Difícil achar uma linha de raciocínio entre seus relatos de magias e interdições. “Isso é do tempo velho. Eu e Simeana não somos de hoje”, reflete. Ela fala da irmã gêmea o tempo todo. “Mãe trouxe nós a pé e com fome. Uma do lado e outra do outro. Do rio verde do Grutuba para cá.”

“Eu estudo na EJA e Simeana fica danada. Simeana não sabe assinar o nome, como é que vai votar?”, pergunta. Foi só quando vi a foto das duas gêmeas que acreditei que Simeana era de verdade. É que depois da rodeação da fogueira em dia de São João é possível saber se existimos. Depois da roda, é hora de ir para a beira do rio e ver seu rosto refletido. Se não, é sinal que já morreu. Nesse momento eu já estava enfeitiçada com a magia de Maria.

O Vicente está secando. Pagando o preço de uma existência de maldade. Maria nos conta do finado Joaquim, seu marido e custo a entender o acontecido. Entre as magias como a terra de cemitério e a irmã que vomitou passarinho, ela conta que Vicente entrou em sua casa e fez o que quis com ela. Depois correu para Joaquim: “Você vai casar com ela? Maria não é mais moça”. Casaram-se e hoje Maria exibe o quadro com a madrinha e o Marido. “Eu não tenho mais ninguém. Mãe, Marido. Todo mundo já morreu”, comenta.

Ela conta tudo enquanto procura o ramo para rezar a gente. “Desde que chegaram eu senti que estavam precisando”, comenta. Primeiro Amanda depois eu. Com as mãos abertas para abrir o corpo, Maria reza enquanto passa o ramo. Depois da reza as folhas estão murchas, é por causa do olho gordo. Antes de ir embora, Maria reza de novo. A benção é para fechar o corpo e impedir que as más energias nos invadam novamente.

segunda-feira, 27 de setembro de 2010

O boi Jesus

André Fossati




Iara, carranca, jacaré, caboclo d'água. As praças de Itacarambi são todas personalizadas. Na praça principal, os bichos e encantamentos do rio. Na outra, em homenagem aos pescadores, a praça dos bancos. Banco dos solitários, banco dos namorados, intelectual, da família, dos moderados. Cada banco é personalizado e colorido. Lá a sua condição de existência faz escolher aonde sentar.

Em Itacambi, cinema é dia de festa. A tela foi montada na quadra de futebol contornada pelas arquibancadas. A trave de gol e os holofotes do cinema. A região é cercada pelos bares, lanchonetes e carrinhos de cachorro quente. Na hora de começar, Inácio teve a ideia de passar um filme surpresa para chamar as pessoas. Ele exibiu "Os filmes que não fiz". A ideia funcionou.

A amplitude do lugar que poderia parecer vazio, imediatamente ficou completa. As pessoas tomaram as arquibancadas, lotaram as cadeiras. Muitas assistiram o filme em pé e outras aproveitaram da mordomia dos barzinhos em forma de quiosque. Outras transitavam de um lado para o outro. Fotografavam, conversavam e assistiam o filme. Uma bricolagem de pessoas, lugares, cenas e personagens encantados. Depois da chamada inusitada do filme que não estava na programação, a abertura da sessão. "Boa noite Itacarambi", dessa vez não foi preciso repetir a saudação: "Um boa noite mais animado", por que as vozes vieram de todas as partes com grande amplitude de som.

Pâmilla Vilas Boas /Cris Barakat



As crianças tentam subir na mula sem cabeça, mas não chegam muito perto do caboclo baixinho com olhar que mete medo. Na praça da cidade, elas vivem o encantamento. A tela inflável está no meio de tudo. Dentro do campo de futebol, no meio do rio, na frente da carranca. Uma mistura de elementos que parece com o sincretismo da manifestação do boi de reis. No dia da apresentação do boi de reis, depois da morte do boi, chegam os animais encantados da folia. Na folia eles estão móveis e são ressignificados com as mudanças que a tradição sofre com o tempo. Na praça, os animais encantados estão fixos, parados e imutáveis.

A festa de boi de reis é a mais esperada na cidade. Quando o vaqueiro mata o boi, a Dona Maria que é quem puxa a folia, ela canta: “Mataram meu boi”, chega mais perto e pergunta: “Quem matou meu boi?”. Ela faz a propaganda e corre atrás do vaqueiro que faz o boi ressuscitar. Depois dessa cena que parece com a ressurreição de Jesus Cristo entram os bichos encantados. Tamanduá, ema, a derradeira e a fera. Luiz Caipora é uma cabaça. Cada bicho tem uma história, uma dança, uma cantiga e a hora certa de entrar na roda.

domingo, 26 de setembro de 2010

Poesia que se escreve na memória

André Fossati

Grupo dos Temerosos se apresentam antes da sessão em Januária

A rua de baixo em Januária por pouco não alcança o rio. Dona Narcisa que tem 80 e poucos anos se lembra da época em que a água chegava a invadir sua casa. Seu Binu com seus 100 anos e oito meses fala de um rio hoje quase morto. Andar pela rua de baixo é mergulhar na história e conversar com pessoas centenárias. Em alguns casos a memória vacila. Como Dona Didi que nos conta a origem do nome Januária e no mesmo minuto se esquece do que foi dito.

Dona Maria de 96 anos é poeta. Seus poemas ela escreve na memória. Sabe os 12 escritos de cor. “Eu penso de fazer a poesia e vou juntando os verbos na rima”, explica. Não teve oportunidade de aprender a ler nem escrever. Mas as rimas são certeiras e os versos, um lamento. A amiga pediu para que fizesse um poema sobre a Itacarambi antiga. Mas as rimas não vieram na cabeça e até hoje Dona Maria não cumpriu o pedido. “É igual música, tem que ter rima se não vira o caos”, enfatiza

Seu Binu, marido de Dona Maria exibe uma caligrafia perfeita. Ele passou para o caderno um dos poemas de sua esposa que fala do Rio São Francisco. “Lagoa aonde passava a pé, logo passava a canoa. Rio de São Francisco a vida ninguém compra e a morte ninguém paga”. Eu pergunto por que seu Binu não registra no caderno todos os poemas de Dona Maria. “Ele não gosta muito de escrever , por que anda tremendo a mão”, explica Dona Maria

Do poema sobre São Francisco, ele se orgulha. Pega o caderno para recitá-lo, cola o olho nas folhas, por que seu Binu não usa óculos. Se perde um pouco nas palavras, mas conclui a leitura do poema e não esconde o orgulho em ainda poder ler sem usar óculos.

Seu Binu não escreve poemas nem é dado as rimas, mas se lembra com memória fotográfica das histórias fantásticas. “O mundo é encantamento. Quem quiser ver coisa nesse mundo, anda. É encanto, coisa que até Satanás duvida”, ele inicia dando vida para as narrativas que um dia podem morrer. Uma vez seu Binu foi para Barretos. Chegou lá e viu um elefante que bebia cerveja. Depois que o elefante encheu a cara, ele levantou as duas patas de trás e dançou igual gente. “Você duvida? Pode escrever com caneta de ouro”, completa. Seu Binu faz questão de ver a gente anotar tudinho. “Anotou aí?”, ele sempre pergunta.

“Dona Narcisa mulher de Berto Preto”. Essa foi a primeira frase de Dona Narcisa quando entramos em sua casa. Essa frase ela repete com freqüência. Sua memória só alcança a vida e os feitos de seu marido, famoso em Januária. Berto Preto era cantor de reis, trouxe os reis dos temerosos e quase todos os festejos tradicionais de Januária. “Era Berto Preto que marcava a dança de São Gonçalo”, lembra. Berto Preto já morreu tem tempo e Dona Narcisa se lembra da época de quaresma quando seu falecido distribuía peixe pela cidade.

Pâmilla Vilas Boas

Seu Binu ganha o CD com o filme da cidade. Ele aparece no filme.
Se a rua fosse minha

A rua de baixo é poesia que se escreve no presente. Num passado não muito distante, Digão conta que a rua sofria com a criminalidade e com o preconceito dos moradores de outras regiões. Em Januária, a briga entre bairros era coisa comum. Os outros moradores não caminhavam pela rua de baixo e quem morava lá não era bem visto no resto da cidade. “A rua de baixo sofria com as drogas e com as crianças que eram levadas para o tráfico”, explica. Para reverter a situação, Digão começou a realizar trabalhos sociais, no começo, sem muita estrutura.

Quando ele teve a idéia de juntar esporte e cultura, a realidade começou a mudar. “O projeto abriu as portas para as comunidades. As crianças criaram amizade, influenciou os pais e a convivência melhorou”, conta. Isso por que Digão explica que a idéia era promover uma interação entre os bairros e as aulas de música, os esportes são abertos a toda a cidade.

“A métrica rica e viva na voz do povo”. No filme o “Homem que engarrafava nuvens” essa é a descrição da pureza magnífica dos versos das músicas nordestinas. Hoje na sessão de cinema o grupo dos Temerosos da rua de baixo se apresenta para o resto da cidade. Temerosos, reis de bois, capoeira. Hoje a rua de baixo é referência cultural; é poesia viva.

sábado, 25 de setembro de 2010

Cobra preta que devora o mundo



O asfalto vai devorar a terra. Meu filho, sabe o que é uma cobra preta que vai devorar muita gente e que não sabe onde começa e termina? Seu Dão cresceu com essa questão na cabeça. Ficou muringando. A idade mais avançada e a sua relação com o encantamento das narrativas dos antigos, fez com que desvendasse o mistério. “A cobra preta infinita é o asfalto. Que não tem começo e não tem fim”, me explica. “Os antigos eram profetas sem saber ler. Sabiam de nada e sabiam de tudo ao mesmo tempo”, conclui.

Durante a entrevista na comunidade de Palmeirinha, a vontade era passar o dia ouvindo as narrativas que não tem limite, que explicam o inexplicável e que dão sentido aonde a razão falta. Seu Dão conviveu com o caboclo d’água. Já passou alguns perrengues, mas o menino encantado do rio nunca fez maldade com ele. “Antônio Quibo atirou no Cabloclo. Ele é encantado e não morre.” Ele conta que o Caboclo derrubou a casa de Antônio que quis zombar do garoto. Pelo fundo do rio, cavando por baixo da terra, ele chegou na casa e fez com que esta fosse devorada.

O nome Pedras de Maria da Cruz também tem explicação. Maria da Cruz era mulher malvada. “Por isso a cidade não desenvolve”, completa. As pessoas que vinham de São Paulo a pé e passavam por Pedras eram mortas e jogadas no rio pela mulher. Debaixo da igreja da cidade tem um salão com Cabloclo d´água, mãe d´água e carreiro de boi. Ninguém deve ousar chegar até lá. Certo dia um mergulhador foi e nunca mais voltou.


O quilombo

Durante a passagem do cinema no Rio em 2007, os antropólogos do projeto descobriram a comunidade negra de Palmeirinha. Ali, eles fizeram amizade com Agmar, e integraram-lhe da questão quilombola no Brasil, da possibilidade de requisitar o certificado de auto-reconhecimento e de solicitar o título das terras cuja escritura, no nome da matricarca da comunidade, Dona Juliana, não está legalizada. Interessado, Agmar começou a pesquisar a história do quilombo, entrevistar moradores e a viajar pela região em busca de informação. “É um vício, minha vida é tornar palmeirinha um quilombo”, diz. O grande desafio agora é convencer a comunidade e fazer a auto-estima deles se elever com o nome quilombo ainda muito estigmatizado.

Perguntei para seu Dão sobre o quilombo ele responde que isso é coisa dos antigos e explica a origem. “Tinha um negro que fugiu da áfrica e veio para cá. Seu nome era Nego Cadete. Uma vez ele Ele pediu para descansar na casa meus avós e eles gostaram da prosa dele. Por lá ele ficou", conta. Seu Dão relata que Nego Cadete viu um papagaio rodando a roça e avisou: "Isso é uma cascavel que vai picar um lá em Goiás". Todo mundo zombou dele. Ele foi girando uma vara, o papagaio foi descendo e se transformou numa cascavel. Ele comenta que Nego Cadete era pessoa muito ativa.

Dona Cida se lembra da novela Sinhá Moça. “Quilombo é igual o da novela. Muito triste, mas isso não existe mais”, conta. Ela nunca foi ao cinema, só assiste imagem pela televisão. Lá na comunidade Palmeirinha, durante a nossa visita, ela comentou do ônibus escolar que iria levar as crianças para a sessão de cinema. Dona Cida estava concentrada. O filme da cidade era sobre a comunidade Palmeirinha, só se ouvia gargalhadas com a imagem do pessoal fazendo farinha de tapioca. Num jogo lúdico entre a questão quilombola, as narrativas de Dão e as imagens cotidianas da comunidade.

sexta-feira, 24 de setembro de 2010

A morte do dourado



Os fotógrafos da embarcação saem correndo. Câmeras gigantes, que acoplam lentes maiores que o próprio instrumento. Muitos cliques. Todo mundo corre para a beira do barco. Eu escrevo com fone de ouvido, por causa do barulho constante do motor. Logo abandono o texto para ver o que aconteceu. Fisgaram um peixe.

A rotina dentro da embarcação é outra e os acontecimentos importantes também. Todo mundo saiu do estado de letargia pelo balancear do barco, para um estado de euforia, depois de quase cinco horas de viagem. Carlinhos da tripulação pescou um dourado de três quilos. Parece pouco considerando as histórias de ribeirinhos, como Seu Binu, que jura ter visto pescador pegar peixe de 200 quilos. “Pode anotar aí”, ele reforça a veracidade do fato. De toda forma era peixe grande e Carlinhos teve que segurar o anzol com firmeza. Todo mundo correu para ver o peixe no rio que parecia inabitado.

“Coitado. Eu não consigo olhar”, eu disse para Amanda. “Imagina você estar lá tranqüilo querendo comer algo e ser fisgado desse jeito”, refletiu Amanda. A Cris começou a chorar silenciosamente. Logo saquei que era por causa do sofrimento da criatura. O fato é que estávamos abaladas com o findar precoce do habitante do rio. Além disso, a imagem do peixe saindo do anzol, perdendo o fôlego enquanto busca algum ar para respirar, lutando para ficar na água, traz certa agonia.

Mesmo assim, a euforia tomou conta de todos. Rodrigo Gonçalves da Petrobrás tirou foto com o peixe. Hoje é o primeiro dia dele no barco e já presencia o maior dos acontecimentos. Ele, que também é pescador, pretende mostrar a façanha para os amigos. Inácio pegou o anzol e queria repetir o feito, empreitada sem sucesso. Esse foi o maior peixe que a tripulação pescou durante todo o trajeto. Todos os dias eles colocam o anzol na água e esperam pegar alguma coisa. Contrariando as histórias de pescaria do passado, em que dava para pegar curimatã com as mãos. De alguma forma, todo mundo acreditava que esse rio não iria dar mais peixe. È por isso que uma simples pescaria é motivo de orgulho, sinal de que o Velho Chico ainda não morreu.

Eu preferi me concentrar nas andorinhas que vivem acompanhando o barco. Elas fizeram ninho no Luminar e ficam sobrevoando em volta para não perder a morada. São duas andorinhas azuis que parecem ter decorado o caminho da embarcação. Cercados pelo rio e pelas andorinhas, o sinal é de que tudo está em seu devido lugar. O rio tem peixe, a natureza ainda está viva, mesmo com a fumaça das carvoarias que se misturam ao azul do céu e do rio.
Chegamos em Itacarambi. As lavadeiras lavam roupas no rio. Os meninos nadam perto delas e alguns ficam no barranco tentando comunicar com a embarcação. "Tira foto da gente", eles gritam de longe.

quinta-feira, 23 de setembro de 2010

“Sem pátria, sem nome, sem lar”

Pâmilla Vilas Boas


Das Neves estava em dúvida. Quando chegamos na comunidade quilombola de Buriti do Meio com aquele monte de câmeras de filmagem, ela perguntou para Inácio. “Será que eu mudo meu nome?”. Uma vez lhe disseram que o nome das Neves remete a algo muito branco e que não combina com a atual posição como remanescente de Quilombo. Na frente da câmera ela mesma reflete. “Mas eu gosto tanto do nome. Foi minha mãe que colocou.”

Eles estavam em reunião discutindo o reconhecimento da comunidade como Quilombola. Ela é a líder de Buriti do Meio e tem consciência da importância de suas falas para os que filmam, pesquisam ou tem curiosidade de entender um pouco do cotidiano da comunidade que guarda uma história preciosa. “Tem gente aqui que nem dá pesquisa. Corre para o mato, vai para outras casas. Fala que não tá. Eu nunca neguei isso em momento algum. Desde 99 eu dou pesquisa para as faculdades pra qualquer presinho, pros doutores, pras justiça.”

Ela pediu para a antropóloga Amanda falar da importância do contato com o Incra para a demarcação das terras. De todas as comunidades quilombolas de Minas, apenas uma conseguiu o título da terra – Porto Cori, hoje sob as águas da represa de Irapé. Mas Amanda diz que, mesmo assim, a luta não está perdida. Depois foi a vez de Das Neves, que com sua espontaneidade fora do comum falou da importância da passagem do cinema, das filmagens e dos pesquisadores. "Eu vou ficando mais capacitada", afirma.

Para conseguir o reconhecimento, Das Neves foi para Brasília e teve que contar sua história para um monte de gente. Quando chegou lá, viu uma exposição com peças da época dos escravos. Dentre elas, as máscaras que os senhores usavam para deixar os negros sem comer. Eles ficavam em jejum durante 40 dias para clarear os dentes. Das Neves se emocionou com o contato com o passado.

Depois foi a sua vez de contar a história do quilombo que começa com o rapto da bisavó que foi acorrentada e domesticada por um fazendeiro. Sua origem vem do filho que a bisavó teve com o senhor. "Ás vezes eu fiquei na posição de jornaleiro. Mais de 50 jornaleiros com o microfone ali pra eu tá falando sem tá prevenida. Claro que eu falei a verdade porque não dava tempo de mentir. O que a gente fazia, comia, o tanto que a gente caminhou, eu fui soltando ali tudo.", conta.
André Fossati


Pelo cinema

“Veio no porão dos navios negreiros em dor. Trabalhar nos engenhos de cana de açúcar. Ser escravo sem pátria, sem nome, sem lar.” Navio Negreiro é música de Toninho Terra. Toninho é músico que ganhou muitos festivais na vida, abriu show de Belchior, Zé Ramalho dentre outros. Hoje abandonou o violão e custa a lembrar algumas de suas duzentas composições. Sentados com Toninho antes da sessão de cinema em São Francisco, ele tenta retomar as melodias na memória. Mas o grupo de teatro de Buritizeiro, Imagem e Contexto, não se conforma; quer levar Toninho de volta aos palcos.

Eles se empolgam falando do compositor e usam várias músicas dele nas peças. Toninho tem uma inspiração fora do comum. Compõe na hora, quando vê ou ouve alguma coisa. Suas músicas falam de temas atuais, coisas do passado, natureza e o que ais lhe vier a cabeça.

O grupo de teatro também ganhou muitos prêmios em suas andanças. Mas a falta de tempo e a dificuldade de se dedicarem exclusivamente aos palcos fez com que o grupo se separasse.

Mas o Cinema no Rio descobriu a existência do grupo e eles decidiram montar a peça ‘São Francisco vivo’ para apresentar no projeto. A apresentação que seria apenas em Buritizeiro se estendeu e eles seguiram com a gente de barco para se apresentar nas cidades do fim de semana. Infelizmente o trabalhou impediu que seguissem o rio todo. Hoje planejam apresentação em Belo Horizonte e acreditam que o Grupo vai se unir novamente.

segunda-feira, 20 de setembro de 2010

A vida de Galinha Tonta





“Isso é uma mensagem de Deus para comunicar com o mundo”. Galinha Tonta aprende qualquer idioma rapidamente e muda a entonação quando fala coreano, japonês, vietinamita, árabe, tailandês. Ele contraria a barreira da linguagem e não escorrega nos fonemas. Como se o mundo fosse um só e como se as palavras fossem fáceis de domesticar, ele vai com tranqüilidade absoluta esbarrando, contornando e contrariando o universo escorregadio da incompreensão.

“Não adianta aprender a palavra cadeira, parede. Tem que aprender para o que serve as coisas,” conta. “Quando eu for para o estrangeiro o que adianta saber falar frases soltas?”. Galinha sempre se preparou para o estrangeiro, mesmo nunca tendo ido muito longe de casa. “Tenho vontade de viajar, mas faltam condições”, lamenta. Esses dias ele foi na prefeitura tentar conseguir uma passagem para Belo Horizonte. Tem um empresário amigo dele que quer apresentá-lo para umas pessoas. E Galinha sabe da importância dessa reunião.

“Eu comecei a aprender russo sozinho e Natasha veio me ensinar”. Galinha Tonta aprendeu os idiomas aos sete anos depois de um sonho revelador. A aparição de Natasha em sonho é recente, depois de muitos anos que os meninos não aparecem mais.

A família não tinha condições e Galinha tinha o costume de pedir comida na casa dos vizinhos. Até o dia em que a diretora da escola o humilhou. “O que esse menino está fazendo aí na mesa? Devia comer com os cachorros”, Galinha conta com detalhes o episódio. “Eu larguei o prato na hora. A garganta tampou. Parece que o mundo escureceu para mim”, lembra. Depois disso ele foi para a casa e ficou debaixo dos cobertores. Durante o sono, sentado na praia apareceram três vultos. O primeiro falou em Japonês: Deus é amor, o segundo, loiro, falou em Alemão e o terceiro falou em Inglês.

Ele despertou do sonho falando coisas que a mãe não entendia. E ela de súbito correu com ele para a igreja, para o padre rezar o problema que ele tava tendo na língua. Mas o padre era de origem alemã e logo percebeu que o Galinha estava era falando o idioma. “Ele não tem problema nenhum de cabeça. É uma graça de Deus na forma de língua”, disse o padre. Depois disso, Galinha conta que a casa dele virou um tumulto.

Fantástico, Ratinho, TV Gazeta, bandeirantes, revista Calunga. Foram muitas as reportagens que relatavam o sonho e o aprender inacreditável de Galinha. Maurício Kubrusly veio filmar ele em sua própria casa. “A gente vai te ajudar” e Galinha com seus 50 anos espera a ajuda até hoje. Mas as perspectivas são boas. O cineasta Davi Colares vai fazer filme com ele. “Já disse que ele precisa retribuir”, completa.

Inácio Neves

Não se apaga

“O professor era os meninos, o giz era o dedo e a areia era o quadro”. A casa de Galinha é toda escrita na parede. “Entrada de banheiro para homens e mulheres” nos ideogramas Japoneses de um lado, wellcome de outro. A casinha pequena, empoeirada, na periferia de São Francisco chama atenção já na fachada. “Escola de idiomas. Espaço fala menino”. Nos fins de semana, ele dá aulas de línguas para as crianças da periferia. De graça, por que como ele, nenhum desses meninos poderia pagar. Com as não muito generosas contribuições que recebeu pela fama da sua forma de aprender as coisas, ele construiu um cômodo para dar aulas. “O que Deus me deu tenho que passar para frente”, repete.

Tanto no cômodo da escola, como na sua casa, as estantes são feitas de tijolos e lá ele guarda dicionários e livros de línguas diversas. Ele sempre recebe caixas de livros e recentemente ganhou um computador. Agora descobriu a internet e copiou uns sites que mostram palavras em línguas diferentes.

Ele agradece a Deus, aos sonhos e aos estrangeiros que passaram por sua casa. Há 10 anos conheceu uma família de Japoneses e se aperfeiçoou no idioma. Depois, uma família de norte americanos passou por lá e ele nunca deixou de conversar com o padre alemão.

Ele sempre conversou com tranqüilidade e nunca se preocupou em ter que colocar o talento em prova. Um dia, numa palestra, os professores de inglês disseram que Galinha conversa tudo errado. Mas um americano que estava presente se levantou e disse que entende Galinha muito bem. Galinha agora escreve o livro: “A vida de Galinha tonta”. Foi à escola só até a quarta série e nunca trabalhou. Antes de aprender a ler, ele aprendeu o alemão. “A partir das recordações eu vivo muito bem”, diz.

Ilha perdida no tempo



Peço para Arnon Siqueira escrever seus pensamentos. Ele fala com emoção, mas de um jeito que não se entende. Sentei no meio fio durante a sessão de São Romão para observar a reação das pessoas. Para descrever semblantes, sorrisos e olhares durante o filme da cidade. Tudo pela minha fixação por perceber outro no seu espelhamento na telona. Arnon estava ao lado e não se incomodava com minhas perguntas. Tentei me acostumar com os sons que o problema na fala impede a distinção, mas minha capacidade foi pouca e entreguei a escritura.

“O filme divulga com emoções
As culturas das nações
Vamos ao cinema ver nossa arte
E a arte feita pela natureza”

Esse é um trecho que Aron escreveu no meu caderno. Apaixonada que sou pela oralidade, tive que sentir o espírito de palavras tão espontâneas. Pedi pra que ele escrevesse o que dizia, só para que pudesse fazer sentido na minha cabeça.

“Fim. Arnon Siqueira. São Romão. 17-09-2010”.

Cadernos

São Romão respira história que é escrita até hoje. O artista Telêmaco devorou os livros e conta tudo desde o começo. São Romão era cidade próspera, em 1719 já era sede judiciativa de Salvador. Com o tempo foi perdendo a força e rebaixada a vila. Como herança, Telêmaco, com seus 40 anos, se lembra da juventude e dos clubes da cidade que eram separados entre negros e brancos. “Sempre fui metido a sabedor”, diz. A casa de Telêmaco é de adobe e ecologicamente correta. Seus quadros com traços livres e subversivos refletem alguém que vive na “Ilha perdida no tempo”, como ele mesmo diz.

Essa ilha tem suas preciosidades, que infelizmente o tempo não perdoa. Para entendermos a tradição, Dona Maria do Batuque deveria viver para sempre. O seu toque de caixa inspira demais a gente, ainda que ela não tenha consciência. Sem ser valorizada pela cidade, mas muito reconhecida no mundo estrangeiro, ela mostra o livro e o CD gravado por quem veio de muito longe.

Uma casa foi construída com dinheiro da venda dos livros. A casa nova fica trancada, ela mora da antiga feita de terra. A construção atual é mesmo para receber os visitantes. Quando chegamos, ela procurou a chave e pediu desculpas por está tudo empoeirado. Pediu para buscar o roncolho e duas caixas. Ela pegou a mais grave e eu tentei acompanhar na mais aguda. Com vergonha de que meu som pudesse interferir na magia de ver Dona Maria bater caixa e cantar as melodias dos antigos, tudo ao mesmo tempo.

sábado, 18 de setembro de 2010

A festa dos sacos se pipoca


Antônio, conhecido como seu atochadinho, tem um carrinho de churrasco em Cachoeira do Manteiga. “Projeto esperança, a criança em primeiro lugar, 24 horas no ar, sem parar”. Essa é a frase estampada no carrinho. De madeira, com o freezer ligado numa bateria, parece ter sido feito todo à mão. “Que projeto é esse seu atochadinho?”, pergunto. "Projeto é aquilo que você projeta na cabeça. É a idéia. Eu acho que criança é mais importante e escrevi”, ele explica. E de onde vem o nome atochadinho. “È para chamar a atenção, por que deixa o povo curioso”. Ele cria suas estratégias e sabe da importância das filmagens, da fotografia. “O pessoal do Rio de Janeiro veio aqui e filmou o carrinho”. Ele pergunta se a gente não quer ir lá e fotografar para passar a imagem adiante.

Seu atochadinho já morou em São Paulo e foi para Cachoeira do Manteiga por acaso. Chegou lá e gostou. A cidade com suas ruas de terra, casas de adobe poderia ser o retrato de um lugar de pobreza. Não fosse a agitação das crianças, suas peraltices e as mulheres que andam pelas ruas com seus bobs gigantescos. A cidade respira um ar de alegria onde o ritmo das coisas corre lento e onde o povo se esconde por precaução. Em cachoeira do Manteiga, a água pega fogo como ilusão, mas é por causa do gás que sai da terra. A tela infla como balão, mas é cinema.

A sessão

Dessa vez eu tive a missão de anunciar a abertura do evento. “Oi gente. Boa noite”, gritei tentando esconder o acanhamento. Com o mesmo receio, muitas pessoas evitaram se aproximar da tela. Ficaram atrás, na esquina, observando o filme de longe. Chamo todo mundo pra frente com o microfone, mas não adianta.

De pé, um senhor fixa os olhos no filme “Menino da porteira”. Convido para sentar, mas ele balança a cabeça indicando um não. Horas depois, o mesmo senhor na mesma posição. O filme de narrativa simples arrebatou a cidade. Bem certo que seja pelo fato de todo mundo conhecer a música e aguardar a hora do menino morrer no meio da boiada. A criançada estava agitada, atirando tudo que via no projetor. Taynara liderava a confusão e inovava com idéias impossíveis, como a de por pedra dentro do saco de pipoca. “Ela não tem limite”, comentei com o psiquiatra Belisário que acabava de integrar a equipe do projeto como convidado. “Ela não tem limite por que tem muitas idéias”, ressaltou.

No momento de tensão, os meninos se calaram. A festa de sacos de pipoca parou. A garotada se ajuntou no meio da lona e o senhor arregalou os olhos. Essa foi a hora esperada. O menino da porteira morreu pisoteado pela boiada sem a chance do resgate do boiadeiro.

Do outro lado, atochadinho vendia seu churrasco de maneira que via o filme bem de longe. A narrativa ressuscitou memórias do passado que atochadinho contou sem dramatizar. Diferentemente da narrativa trágica do filme, ele contava com tranqüilidade. “O São Francisco me levou três parentes”, dizia ao mesmo tempo em que falava da importância do projeto que segue esse mesmo rio. O irmão de dois anos caiu no São Francisco, a mãe foi tirar e se afogou. A tia chegou a tempo e conseguiu salvar o garoto que hoje está em qualquer lugar do mundo. “Vou escrever uma carta para o Gugu e ver se encontro meu irmão”, diz. Seu atochadinho sabe da importância da comunicação: “Só eles poderiam encontrá-lo”.

sexta-feira, 17 de setembro de 2010

Único instrumento

André Fossati

Os batuqueiros tocam o roncolho

Uma lata de leite de metal. Tira a tampa e coloca o couro de bezerro. Dentro da lata uma vara. O roncolho é instrumento essencial nos batuques. Quando puxa a vara, o som é rouco, grave, intenso. Misturado às três caixas, ele sobressai e faz com que o batucar tenha sonoridade única. Única por que o instrumento é singular. No batuque de Ponto Chique ele é tocado por duas pessoas. A lata de leite é comprida. Um senta em cima da lata para batucar na parte coberta de couro de bezerro e outro senta num banquinho e puxa a vara do roncolho.

“Eles não gostam muito de nós”, o batuqueiro Olímpio Gonçalves fala do desprezo do pessoal da cidade com relação ao batuque. Na primeira vez que o Cinema no Rio passou por Ponto Chique, eles não tocavam muito e não queriam se apresentar antes da sessão. Com muita insistência, eles toparam se apresentar na praça. De lá pra cá muita coisa mudou. “A gente foi entrevistado na sala do presidente Lula. Lá tem três mesas maiores e uma menor”, explica. Seu Olímpio veio pedir apoio para Inácio, eles só não se apresentaram ainda em Belo Horizonte. “Por que a gente quer é crescer. Antes do Cinema no Rio passar a gente não sabia nem brincar. Hoje a gente leva essa história adiante”, emenda.

A dança eles explicam que veio da Bahia na época dos escravos. Que veio com o pessoal que andava pelo rio. “Canoeiro o que você trouxe na canoa? Cravo, rosa e muita coisa boa”, canta. O batuque é feito de conversa. A cantoria também resolve os dilemas. Dona Isabel de 102 anos é a rainha do batuque. Ela e o filho, Valeriano, relembram o dia que a tia de Dona Isabel apanhou do marido. O marido estava na caixa e a tia puxou a melodia. “Foi você João.”. “Não fui não Maria.”, ele respondeu. “Foi você que me bateu no romper do dia”, ela denunciou, em melodia, na roda de batuque. Quando se cria um novo verso, não se esquece mais. Ele é incorporado ao batuque e repetido pelas gerações. O que faz do batuque de ponto Chique único é a dança que não tem em nenhum outro lugar. “Ninguém dança igual a gente”, comenta Olímpio.

Todo mundo entra na roda

Dentro da roda


No terreiro, os pintinhos, a casa simples e o varau de roupa. De repente entra o pessoal do Cinema no Rio, o fotógrafo e a TV Cultura. As câmeras invadem a rotina de um dos locais onde brincam os batuqueiros. Depois de muitas filmagens eles vão se apresentar de novo antes da sessão. Depois da apresentação, ainda muito tímida, talvez por causa de tanto holofote e luz que atrapalha até a visão. Talvez por que o medo de se apresentar na cidade de origem ainda não passou. Ou por que é difícil resumir a tradição para apresentar no palco.

Fui no barco e coloquei uma saia. Ansiosos para aprender um pouco do batuque, pedimos para eles brincarem, depois da apresentação, na rua ao lado da sessão de cinema. Roda para um lado, roda para o outro. Depois do último giro, uma bate o ombro no ombro da outra. Para convidar para dançar, o movimento é livre, mas o olhar deve se manter fixo nos olhos de com quem você quer girar. Foi a parte mais difícil. Me convencer de que eu deveria estar ali e poder olhar nos olhos das mulheres que fazem dessa brincadeira a sua vida.

As mulheres geralmente só dançam e respondem o cantador. Quase nunca puxam o roncolho. Eu fiquei curiosa com o som, a curiosidade superou o jeito certo das coisas seguirem. Deixa eu ver como toca. Talvez por que eu era de fora, eles me ensinaram, e me deixaram tentar. “Olhá só ela está puxando o roncolho”, gritaram. “Você tem que contar para a Fernanda [antropóloga que esteve com eles na edição anterior]”.

Saímos de lá ainda sem entender direito como funciona o tal batuque. A ida é rápida mesmo, a interação mais ainda. “Imagina se a gente pudesse ficar aqui um mês. Só com o tempo a gente consegue entender o que é que se fala na roda”, comenta a antropóloga Amanda. Os versos ficaram escondidos no canto que ainda embaralha as nossas cabeças e, terminado o batuque, nos diz Olímpio: “Vocês viram que eu cantei também pro Cinema?”. Nós sorrimos em agradecimento. Ainda que não tenhamos identificado a cantiga quando cantada, o elogio do cantador, nos fazendo batuque, alegra e arrepia o corpo cansado de tanto pulo e rodopio.

quinta-feira, 16 de setembro de 2010

Os sambas que eu não fiz

André Fossati

Seu Geraldo se apresenta antes da sessão de cinema

O dobrado, a partitura, semínima, fusa, semifusa. “Eu sou músico de escola”, gaba o trompetista Aureliano. "É bem mais difícil, o alfabeto é o dó, ré, mi, fa, sol, la, si que vai do grave ao agudo". Já o sanfoneiro seu Geraldo toca de ouvido. Peço para me ensinar os acordes na sanfona e ele se confunde. "Essas bolinhas são o baixo que acompanha o teclado. O fole é para sair som", explica. Durante a exibição de cinema em Ibiaí, Geraldo comenta. “Acho que isso de estudar não tem nada a ver, se você consegue tocar música bonita”. Ele tem razão, sua sanfona despertou os aplausos da sessão lotada. A história de Adão é ourta. Ele trabalhava para o pai tocar. "A gente era pobre e ele teve muito filho. Não tive como aprender”, conta. Mesmo assim ele sabe muito de instrumento e brilha os olhos quando fala do pai e da música.

A banda antiga de Ibiaí é o que une tudo isso. “Era a melhor, só perdia para São Romão”, Adão comenta. O pai tocava todos os instrumentos e o maestro da banda fazia questão dele nas apresentações. Certo dia o maestro apareceu na roça para buscar o pai, mas eles estavam roçando o terreno e o pai se recusou a abandonar a lavoura. Seu Adão ainda pequeno disse: "vai lá pai e eu dou um jeito de achar alguém para me ajudar na lida.” "Se é assim eu vou", respondeu. Já seu Aureliano também era integrante da banda e se lembra dos sambas antigos. Geraldo e Aureliano vivem música de forma diferentes. Geraldo nunca teve visão e Aureliano já não vê com os olhos por causa da idade. Um fala do dom de nascença e o outro da relevância dos estudos.


Seu Aureliano jura que sabe os sambas de cor

Outros carnavais

“Vai, vai amor, vai que depois eu vou”. Tataratatá. Seu Aureliano guarda na memória os sambas que a antiga banda da cidade tocava. Ele pediu a prefeita de Ibiaí para trazer uma banda de Brasília e pediu também para que tocassem o dobrado. Aureliano se emocionou e o Seu Adão também.

"Peraí que vou buscar o caderno". Seu Aureliano guarda a memória na escritura. A lista de todos os vapores de Minas e Bahia e alguns sambas que ele quase sabe de cor. Dentro de toda essa memória algumas anotações que não fazem muito sentido. A capital do méxico é maior que a capital de São Paulo. Inconstitucionalicimamente. Essas frases soltas só fazem sentido pelo jeito metódico de Aureliano que ficou pouco tempo na escola, mas mostra que sabe soletar a maior palavra de 32 letras. "Para você ver o crânio de uma pessoa inteligente", gaba. O Orgulho de Aureliano por sua história nos chama atenção e nos fez ter a ideia de gravar seus sambas. Chegamos lá com a equipe de filmagem, eu gravava o som, enquanto Amanda ia lendo uns trechos dos sambas anotados no caderno.

A memória é boa, mas ele ainda precisa de alguém para falar o comecinho dos sambas antigos. Só isso já faz Aureliano puxar tudo da memória. A autoria deles não importa, o que vale é a lembrança das melodias que são passadas de geração a geração. Aureliano canta Chiquinha bacana e diz: "É tudo meu. Eu posso cair mortinho se alguém me ajudou a fazer". Ele não está dizendo da autoria, se refere a memória, à lembrança e às letras escritas no caderno. Seu Aureliano não encherga bem, mas avisa: "Toma cuidado que as duas primeiras folhas estão soltas e não posso perder nada".


quarta-feira, 15 de setembro de 2010

Passagem secreta


André Fossati

A árvore parece contradizer a razão da existência humana. Entrelaçada na ruína de pedra, fica a dúvida. Será a gameleira que sustenta a igreja de trezentos anos, ou os seus galhos entrelaçados, o prenúncio da destruição das ruínas de pedra? Quebrar as muralhas que testemunharam mais de trezentos anos de história. A luz do cinema ilumina as folhagens da árvore entranhada na parede da igreja. Em sua frente o absurdo de uma tela inflável que traz a possibilidade da imagem em movimento. “Cadê meu amor que a noite chegou fazendo frio”.

Compondo a paisagem, um grupo de teatro se apresenta. Movimento, sons, cores. As crianças batem palma no ritmo da melodia. “Cadê meu amor que a noite chegou fazendo frio.” A seção de cinema em Barra do Guaicuí não se descreve por que faltam palavras adequadas. Em frente à igreja de pedra, construída pelos jesuítas no século XVII, uma tela inflável. No fundo uma árvore que surge das ruínas. Na frente, a cantoria do grupo que encena o sofrimento do Velho Chico.

Assistindo a tudo isso, um monte de criança inquieta que, quando pára de conversar para focar a atenção no grupo de teatro, é por que a cena é realmente muito encantadora.
“ê ô ô. Velho Chico”, cantaram.

A seção estava lotada. Na hora do filme da cidade, aquela gritaria. O louco da cidade, as crianças na escola, as professoras. Quando todo mundo reconhece o personagem na tela, arma-se o alvoroço. As crianças jogam papel, pipoca e o que tem pela frente no projetor. A sombra na tela os encantam. “Vocês estão atrapalhando a projeção”, grita o pessoal do cinema. E eles continuam testando e desvendando o que parece magia.


André Fossati

Sem fim

No século XVII os Jesuítas não terminaram a empreitada. Deixaram a igreja de pedra pelas metades. A guerra com os bandeirantes que escravizavam indígenas impediu o término da igreja que foi feita para durar para sempre. Em meados de 1930 surgiu a gameleira, entrelaçou-se e tomou conta da construção. Dentro da igreja a fantástica passagem secreta. Para uns uma lenda, outros tem argumentos históricos. A enchente encobriu o túnel que atravessava o rio. Para as crianças, a passagem secreta leva até a comunidade de Porteirinhas. Elas contam que o espírito de Fernão Dias mora lá na comunidade. Todo dia à tarde as crianças se reúnem na igreja para suas peraltices. Cheguei lá para fotografar e eles quiseram minha câmera. Quando eu pedi para fotografá-los eles retribuíram. “Vem cá que eu vou fazer foto sua”.

terça-feira, 14 de setembro de 2010

Navegantes de primeira viagem


André Fossati

Os navegantes de primeira viagem escondiam a ansiedade de passar muitos dias e noites dentro do barco. O quarto é muito pequeno? Tem banheiro? Chuveiro quente? Inácio que já seguiu o São Francisco várias vezes tenta acalmar os tripulantes. Sua primeira viagem foi em 1975. Inácio adora contar a aventura. “Era época da ditadura. As cidades do Velho Chico eram muito diferentes”, lembra. Estrada sem asfalto, dificuldade de acesso, a falta de recursos era muito maior. Ele desceu no vapor Venceslau Braz, famosa embarcação que movimentava os portos ao longo do Velho Chico.

Hoje o rio é outro. Muita gente diz que nunca viu esse rio tão seco, sem peixe. Mesmo assim, a paisagem não deixa de ser encantadora. Mas a água azulzinha, os pássaros coloridos vez ou outra dão lugar as fábricas e sua fumaça à beira do rio. Agora, sou capaz de imaginar toda a movimentação de embarcações e sou capaz até de ouvir a diversidade sonora dos apitos. Inácio relembra da expedição e da movimentação do rio. Do forró perto dos portos e do apito que avisava a partida do próximo vapor.

Depois de ver o barco zarpar, e se acostumar com o balanço e com a movimentação do rio, a tripulação se acalma. Olhares perdidos nessa imensidão azul e a paz do silêncio dos pensamentos. Escrevo agora olhando para o rio e prestando atenção nas pessoas. A jornalista Bernadete do Canal Brasil conta das suas andanças e não perde o fôlego. Ela passaria toda viagem contando seus casos sem repetir nenhum. “Me perguntaram onde encontro Deus. Eu respondi: dentro de uma caverna”. O editor de direitos autorais, Dario escuta pacientemente as histórias da jornalista. Ele veio como convidado, mas faz questão de participar do dia-a-dia do projeto, conversar com as pessoas e participar das seções de cinema. “O mais legal é ver o povo feliz e os sorrisos das crianças.”, diz.

O fotógrafo André Fossati, se cansou de contar piadas. “A roça sou eu”, para se concentrar nas imagens diárias que produz do rio. O jornalista Fernando, da revista Viver Brasil, que parecia ansioso com a viagem, se acomoda no segundo andar do Luminar e perde sua visão no horizonte. A assessora de imprensa Júlia, o cineasta Fernando conversam despretensiosamente. A oficineira Sâmara não desgruda de sua câmera. O resto da tribulação: a antropóloga Amanda, as oficineiras Michele e Erika foram se acomodar no camarote, quarto pequeno, no primeiro andar da embarcação, com vários beliches e um ventilador.

É assim mesmo que seguimos nossa jornada. Como diz o produtor executivo, Rangel, “o projeto começa quando entramos no barco”. É só depois que nos deparamos com a imensidão do rio que damos conta dessa empreitada e dos quilômetros, cidades e histórias que ainda temos pela frente. Inácio grita atenção ao belo encontro entre o rio das Velhas e o São Francisco. Os jornalistas correm para fotografar o momento. Pequenas embarcações margeiam o rio das Velhas em Barra do Guaicuí. Chegamos agora ao nosso primeiro destino.

segunda-feira, 13 de setembro de 2010

Uma terra para morrer


Pâmilla Vilas Boas

Foi pega no laço. Depois amarrada e domesticada pelo fazendeiro no entorno de Buritizeiro. Para ver se já estava amansada, ele jogava uma galinha no cativeiro. A fome e o ódio eram tamanhos que a pequena índia rasgava a galinha no dente. Mas com o tempo foi se acostumando com as angústias da vida, foi tendo que perder a raiz. Raiz de tradição e, mais importante ainda, a raiz que a ligava a terra, ao chão, a vida, a sobrevivência. Essa é a lembrança de Matilde, indígena Cariri, durante a seção de cinema em Buritizeiro, onde ela me contava um pouco da sua história que começa com a lembrança do rapto da bisavó. Ali, sentada na cadeira, acuada, quieta, silenciosa. Um grande acaso, eu ter conversado com Matilde e ter ouvido tanta história que não se conta e que não se escuta. Um passado silenciado que fez parte da construção da famosa Buritizeiro.

No começo era só mato, quando forasteiros e nativos da região disputavam a posse das terras na beira do São Francisco, famoso rio coberto de diamantes. No meio da disputa, os índios Cariris que já habitavam a região, foram mortos e enterrados, lado a lado, no hoje conhecido cemitério dos índios. Ninguém sabia, até a instalação do SAAE no lugar. O desenterrar dos crânios remontaram toda a história.

Algumas famílias sobreviveram, dentre elas, a família de Matilde que foi viver numa terra abandonada, perto de Buritizeiro. Por lá, passaram pela guerra da fome. Com a enchente de 1979 não tinha como buscar comida, a não ser as raízes de pau. Lampião também passou por lá, nas suas andanças e na matança de quem o contrariava. Seu Manuel, pai de Matilde, viu tudo isso e conta também da época em que trabalhava para um fazendeiro da região. Época em que fora escravizado sem saber. Trabalhavam por comida, que era superfaturada pelo fazendeiro. Com o dinheiro acumulado pelo trabalho da família indígena, ele conseguiu o recurso necessário para comprar as terras, ocupadas pela família de Matilde.

“Tem dia que eu alembro e fico duas noites sem dormir”. Manuel prefere não recordar do dia em que teve a terra tomada e a casa destruída na sua frente pelo mesmo fazendeiro que o escravizara. “Qual foi sua reação?”, eu interroguei sem consciência da crueldade da pergunta. Ele se calou, ficou olhando para o infinito. “Ele não fez nada, ficou chorando. Eu mesma achei que ele não iria agüentar, mas está aí vivo até hoje”, interrompe Matilde que faz questão de contar tudo que lembra. As terras foram tomadas recentemente e Manuel não teve como recorrer. O único advogado que tentou defender a família, foi morto. Manuel e a esposa passaram um tempo se escondendo por causa das ameaças de morte.

Mesmo assim, Manuel prefere não comentar sobre suas raízes indígenas, mesmo que o cinto com a imagem de um índio americano pudesse sugerir suas referências. Ele fala das cabeças de porcos perdidas com a tomada da terra e conta da sua vida após a devoção. Seu relato começa, sempre, de quando se tornou devoto da folia de reis. “Tem hora que é bom ser índio, mas tem hora que não é. Meu pai passou leite de madeira nos dentes, caiu tudinho. É que índio tem dente grande, fácil de perceber”, lembra Matilde completando o silêncio ensurdecedor dos pensamentos do pai.

Matilde lembra que de falecido na sua família não tem ninguém, que todo mundo foi assassinado. Menos a avó carrasca que enterrava os filhos até a cintura para eles ficarem quietos, quando ela tinha que sair de casa. Com isso sua mãe ficou paralítica. Matilde não gosta muito de açúcar e prefere alimento cru. O sonho é voltar para o campo, sente uma necessidade forte que a leva em direção da tão sonhada terra. “A gente fica recolhido sem poder voltar para o lugar de onde veio”, diz. Ela se casou com um descendente de espanhóis que quer se mudar de Buritizeiro. Matilde insiste, quer ficar onde moram seus pais e seus avós, onde sua família criou seus irmãos, venceu a fome e fincou raízes.

domingo, 12 de setembro de 2010

Vídeo Andrequicé


Vídeo filmado em Andrequicé e exibido antes dos filmes. Maria Eduarda e Marco Túlio se divertem na frente da câmera. A memória de Manuelzão é recontada pelos moradores

Untitled from Cinear on Vimeo.

sábado, 11 de setembro de 2010

Manuelzão ainda vive


Foto: André Fossati

Não tenho medo da morte
Por que sei que vou morrer
Tenho medo do amor falso
Que mata sem Deus querer

Esse é o verso mais famoso de Manuelzão. Verso que ele recitava para o povo da cidade, jornalistas de fora e que esteve impresso na lembrança da missa de sétimo dia. “Manuelzão não morreu, ele continua até hoje com a gente. Ele é o Roberto Carlos de Andrequicé”, comenta Dalva do grupo de bordadeiras da cidade. “Ele sabia fantasiar histórias. O grande diferencial é que ele não ficava só no alicate, ele ia além”, relembra. Se Manuelzão foi o vaqueiro mais lembrado durante suas andanças com Guimarães Rosa é por que ele sabia como fantasiar e acrescentar os causos que ouvia dos antigos.

Quando os moradores de Andrequicé recontam a pessoa de Manuelzão, a imaginação vem à tona novamente. Não uma imaginação desconexa e às vezes sem sentido como a de Marco Túlio, mas uma memória que vacila e reinventa.

“Me fala um pouco sobre Manuelzão”, pergunto para a filha Aparecida Nardi. “Qual? O famoso ou o nosso Manuelzão?” Na lembrança de Aparecida, ele era homem simples que acordava cedo, fazia café e cuidava de uma horta enorme que plantou com a esposa. Ele dormia cedo, mas na época da novela Roque Santeiro, ele dormia mais tarde. Aparecida conta quando Manuelzão foi conhecer os personagens da novela, Viúva Porcina e o Sinhozinho Malta. “Ele não tinha medo de nada, só de avião. Dizia que para morrer de avião, só se um deles caísse na cabeça dele”, mesmo assim, com o tempo, Manuelzão se rendeu ao transporte dos céus e passou a dizer que era a melhor coisa do mundo, nos conta Aparecida.

Era homem inquieto que, quando ficava mais de uma semana sem viajar se entristecia. Ele andou a cavalo até os 90 anos e passou 40 dias e 40 noites com Guimarães Rosa. Dava palestra em Belo Horizonte. “O Doutor Apolo, vinha muito aqui e buscava ele para dar palestra na faculdade. Ele ia batizar o primeiro filho dele, mas acabou morrendo antes”, comenta.

Homem que gostava muito de mulher bonita e que era capaz de passar uma noite inteira contando caso para os jornalistas que vez ou outra iam o visitar. “Os repórteres tiveram aqui e levaram ele para a praia. Ele adorou as mulheres de biquíni”, conta Aparecida. Homem que não aceitava que falasse que Aparecida era filha adotada, isso por que, para ele, pai é quem cria. “Não tem um dia que a gente não fala dele”, termina.

sexta-feira, 10 de setembro de 2010

Na tela



“Depois não vai passar a gente de novo não?” pergunta o neto de Manuelzão Marco Túlio na seção de cinema em Andrequicé. “E depois que acabar, aí acaba?”, insiste. Ele e a colega de sala Maria Eduarda foram a sensação do filme da cidade. “Não é assim que começa”, diz Maria Eduarda para Marco Túlio no filme. É sim, vamos começar do refrão mesmo, continuam os dois discutindo na tela. O Marco Túlio ri e se diverte do Marco Túlio do vídeo. Na vida real, ele convive com as brincadeiras dos colegas. “Falta um parafuso nele, liga não”, brinca a coleguinha Carol. “Você é muito bonita”, responde Marco Túlio.
As chacotas e as risadinhas vêm dessa inventividade. Ele adora misturar realidade com ficção. Quando ele conta o trecho de Manuelzão e Miguilim, ele vai misturando com seus pensamentos. “Vamos buscar a Maria Eduarda?”, eu pedi para ele me levar até a casa dela. “Eu posso ir lá, posso ir até o Rio de Janeiro também”, ele inventa e segue comigo até a casa da amiga. O caminho até lá foi de muitas interrupções, o pensamento de MarcoTúlio vaga demais, fica difícil acompanhar os seus passos agitados e seus pensamentos desconexos.

A Maria Eduarda da tela é altiva. Sabe as cantigas de cor e não se intimida com a câmera. Mesmo com apenas cinco anos é capaz de nos levar na conversa. Na vida real, no sofá da sala, ela estava acuada. Por pouco não foi ver a si mesma na tela de cinema. Chegamos na casa dela e eu insisti com seus pais para que ela fosse conosco. “Pode ir Maria Eduarda”, responde o pai. Instantaneamente, ela abre um sorriso. A mãe diz que vai também e pergunta se vai isso vai demorar. Os irmãos menores ficam chorando, querem ir, mas o pai impede. “A Maria Eduarda ainda faz parte do grupo de contadores?”, eu pergunto. “Faz não”, responde a mãe brevemente, preocupada com a janta que deixou de fazer.

quinta-feira, 9 de setembro de 2010

ver com os ouvidos



“A minha maneira eu vejo, com o coração e o ouvido. O que eu não consigo entender Denise explica.” Ningo vendia laranja, juntava dinheiro e gastava no cinema. Antigamente, em Felixlândia, quando o cinema era dos ciganos, ou funcionava na paróquia da igreja, Ningo ainda tinha sua visão. Assistia cinema com os olhos, se encantava com as imagens em movimento. Hoje, durante a exibição de cinema na praça de Felixlândia, a sensação é outra. Ningo já não assiste com os olhos, ele aguça os ouvidos, imagina as imagens, e conta com a ajuda da esposa que em momento nenhum deixa de segurar suas mãos.

Quando tem muita fala, quando a narrativa é rápida, Ningo vai criando tudo em sua mente e compreende melhor o filme. Mas quando o diálogo é pouco, quando as imagens duram, ele pede a esposa para descrever tudo. É nesse exercício de oralidade que Ningo vai montando seu próprio filme. Assim ele reinventa uma nova forma de estar no mundo, depois do acidente que o fez enxergar tudo de outra forma.

Conversando com Ningo antes da seção de cinema, seu Neguinho vai dando detalhes da época em que os ciganos exibiam cinema na cidade. Talvez seja a itinerância do Cinema no rio que tenha suscitado essa época quando o cinema era como o circo, chegava e movimentava a comunidade que se preparava para o evento. “Na época custava cinco cruzeiros, o que equivale hoje há 50 reais. Era caro, mas a gente juntava dinheiro e não deixava de ir”, comenta. E seu Neguinho tava lá na praça antes da seção começar. Atento a todos os detalhes e à movimentação que os “ciganos” do São Francisco provocam nas cidades por onde passam. A tela inflável provoca curiosidade, a pipoca de graça, cadeiras e o projetor vão tomando conta da praça na frente da igreja. Magia capaz de envolver quem passa por ali.

“Você sabe qual é a cidade que acabou antes de começar?” pergunta Neguinho em referência ao curta metragem “O Jumento Santo e a Cidade que Acabou Antes de Começar” que foi exibido no dia. Ninguém soube responder e Neguinho se gabou do fato de ser analfabeto e conhecer tanta coisa nesse mundo.

De volta à magia

Desde 1968 que o cinema deixou de fazer parte do cotidiano de Felixlândia. A secretária de cultura da cidade, Leidélia, se lembra da época em que o cinema ficava num galpão perto da sua casa, logo quando ele deixou de se localizar na paróquia da cidade. “A gente subia no basculante para assistir os filmes. Um único filme chegava a ficar meses em cartaz, por isso a gente assistia o mesmo umas cinco vezes”, lembra.

Ainda apaixonada por cinema, Leidélia insistiu até conseguir voltar com o cinema para a cidade. Através do projeto Cine mais Cultura do Ministério da Cultura, ela conseguiu aprovar um projeto para criar um cineclube em Felixlândia. Ela comenta sobre o despertar que o projeto Cinema no Rio teve para a iniciativa de criação do cineclube. “Todo mundo está confundindo o Projeto Cinema no Rio com o Cineclube Feliz Arte”, comenta. Confusão boa, que pode fazer o cineclube lotar de gente da mesma forma como a praça da cidade.

quarta-feira, 8 de setembro de 2010

O que chamamos de silêncio



Seu Totó se lembra perfeitamente do código Morse do telégrafo. O linha-ponto-linha transmitia mensagens importantes, antecipava barulhos e era a comunicação da importante Carinhanha, rota de passagem entre Minas e Bahia. Seu Poliondas é capaz de ouvir, reproduzir, imaginar e recontar os barulhos em Carinhanha, o dia em que coronel Duke retomou o poder na cidade juntamente com Getúlio Vargas. Dona Zetinha cantou os apitos em Pirapora. Cada embarcação tinha sonoridade própria, uma mais grandiosa, soberba, grave, alegre. Era assim que as pessoas sabiam quando alguém estava para chegar. Era assim que a cidade se movimentava e lotava os portos a beira do São Francisco.

A família marolinha vive colhendo frutos de cerrado.Tem hora para colher, hora para descascar o baru e as cantigas durante a dura jornada da família. Seu Tezinho é o celeiro de Manga. "Meu mestre foi a precisão, o que me fez aprender meu ofício", avisa. Ele também foi pescador e nos conta de um rio do passado: "Dava umas arribada de peixe que chegava a trovejar. Hoje não tem uma piaba, por isso não pesco mais".

Todas essas histórias estão lá guardadas na memória que um dia se apaga como tudo que não sobrevive para sempre. A oralidade é o registro mais comum em muitas comunidades a beira do São Francisco. Mas uma coisa me angustiava, o silêncio não pode ser compatível com tanta riqueza.

O silêncio na rua de Carinhanha, o silêncio da televisão no quilombo Tomé Nunes me fez lembrar da frase de Clarice: "O que ouvimos e chamamos de silêncio?" Será que essas histórias permanecerão nas comunidades se aparentemente os mais jovens ou se a própria comunidade parece não escutar tanta memória? Mesmo assim todo esse imaginário grita e constrói a história dessas cidades. É o lastro, a origem de um universo que é único em cada uma dessas cidades que margeiam o São Francisco.

terça-feira, 7 de setembro de 2010

Água pega fogo



Por Amanda Horta
Finado o caos, nós já dentro da balsa, o filme de Cachoeira do Manteiga começa a surgir sobre o rio que marca a divisa dos dois municípios, através das histórias que já ouvimos sobre a Fazendo Pé do Morro, onde haveria um poço onde água pega fogo.

Chegando na cidade, o caso, que soa como uma contradição dos termos – pois que água, bem sei, sempre serviu para apagar as chamas daquilo que queima – me foi esclarecido, entre risos, por Sr Lili, antigo morador da cidade. Diz o lavrador que a água sai acompanhada de um gás, que mantém a chama acesa a despeito da umidade. Se muitos já disseram ser encanto, ou se já se atribuíram poderes fazendo fogo brotar da água com ares de passo de mágica, tudo hoje está esclarecido, e os moradores acham graça do estranho fenômeno da natureza.

Seu João Bem-te-vi, no alto de seus 79 anos, lembra-se bem dos tempos em que a ciência ainda não tapava os abismos da compreensão. Tempo de muito peixe no rio e poucas casas ali, quando Cachoeira do Manteiga nem venda tinha, e o comércio descia o rio de lancha, vindo de Pirapora. Seu filho, Zé Bem-te-vi, herdou o nome de pássaro e a rede de pesca, e busca no peixe parte de seu sustento, tal qual seu pai nos dias antigos.

segunda-feira, 6 de setembro de 2010

A balsa



Por Amanda Horta
Deixar uma cidade traz sempre certa melancolia, como se criássemos uma sala no peito para então deixá-la vazia, no paradoxo entre o transbordar de lembrança e o poço sem fundo do desejo de mais.

A balsa que nos levaria de Ponto Chique à próxima cidade tardou quase uma hora e, na beira do rio, a espera e o silêncio foram se alargando enquanto o sol já não cravava mais o meio do dia.

Mas entre nós, a balsa, e o outro lado do rio, não tinha só o silêncio sagrado que memora a saudade: tinha também um caminhão, um gigante com tanta cerveja por cima, que foi entalar o nosso caminho.

Pesando a balsa pr’um lado, o tal caminhão cravou-se no chão, e não tinha homem, madeira ou macaco, que o fizesse entrar ou sair, e nossa balsa, grudada na margem de cá, perdeu de súbito a serventia de ponte.

E foi um “Deus-nos-acuda”: puxa o carro pra cá, pesa a balsa daqui, o dia caindo, todo mundo entalado olhando atônito o caminhão de cerveja quente – festa futura de alguém – fazer conosco este atraso de vida.

E o sol se esconde no chão, e surge a estrela Dalva, e depois de um monte de reza – e um tanto de esforço também – o caminhão solta os dentes da beira, e a balsa atravessa de novo em silêncio, deixando n’outra margem a balbúrdia da situação.

domingo, 5 de setembro de 2010

Pelos chifres



Por Amanda Horta
Em Ponto Chique é tempo de vaquejada. O evento que reúne um mundo de vaqueiros, vindos de vários cantos da região, faz sensação entre os moradores que, no Parque “Nô Rabelo” assistem em festa os bois, em disparada, serem tomados pelo rabo e jogados no chão. Quando a queda faz o bicho pôr a as patas no pro ar, o narrador confirma o ponto e a próxima dupla de vaqueiros já entra na pista para tentar repetir a proeza.

A lavoura e o gado compõe a vida de Ponto Chique, e entre ‘causos’ e ‘aboios’ se vai construindo o filme desta edição. O primeiro de nossos encontros é com Sebastião Gonçalves Rocha (47), o Rochinha. Criado por entre os bois de seu pai – com a lição de que aquilo que a vida não dá, se produz – Rochinha se fez vaqueiro de seus próprios bichos, e amigo fundo de seus animais. Seu cavalo, que escutava de perto nossa conversa, nos parecia sempre inquieto, e Rochinha nos explicava: “é saudade da que ele tem. Hoje eu o levo de volta pra casa”.

A procura por um berrante nos levou à casa de Sr. Raulino (59),que mesmo guardando o instrumento, disse que aboio se faz no grito, e que, quando moço, vaqueiro bom era o que pegava o boi pelos chifres. E assim, o nosso encontro navega os rios da memória, os velhos vaqueiros valentes, os bailes dançados outrora, e com as palavras de Sr. Raulino ainda latentes na cuca, nos despedimos de Ponto Chique, tranqüilos pela certeza do retorno breve.

sexta-feira, 3 de setembro de 2010

Velhas canções



por Amanda Horta
Domingo cedo a estrada nos levou de Pirapora a Ibiaí, atrás de novas histórias. Os muitos encontros que se farão filme começam na feirinha da cidade, a poucos metros de onde o Cinema no Rio já brilhou a tela para os olhos de tanta gente e que, no dia 15 de setembro, voltará, mostrando outros cantos da tradição destes vizinhos do Rio São Francisco.

Dentre eles, está Sr. Eustáquio (58), que ainda menino já nadava pelas águas do Velho Chico. O ofício de peixe, nos conta, aprendera tal qual a arte de tecer redes: seus olhos atentos lhe serviram de único mestre.
Dali, visitamos Sr. Osair que, de viola e cavaquinho no braço, nos levou até a casa de Sr. Geraldo (44), exímio tocador de sanfona. Autodidata, Geraldo toca a sanfona de ouvido: quando bebê perdera a visão e a música, feito alimento, lhe tapava a fome do peito, acalentando as tristezas e embalando as alegrias da vida.

E do encontro destes dois músicos, bem frente à câmera se faz seresta, cercada por memórias que ganham vida nas palavras dos velhos amigos e nas notas das velhas canções.

Cronograma Cinema no Rio São Francisco



O Projeto Cinema no Rio São Francisco irá passar por 19 cidades. O Velho Chico é o fio condutor dessa intinerância pela arte de fazer e exibir cinema.

8/9/2010 - FELIXLANDIA - MG
9/9/2010 - ANDREQUICÉ - MG
11/9/2010 - BURITIZEIRO - MG
12/9/2010 - PIRAPORA - MG
13/9/2010 - BARRA DO GUACUÍ - MG
15/9/2010 - IBIAÍ - MG
16/9/2010 - PONTO CHIQUE - MG
17/9/2010 - CACHOEIRA DO MANTEIGA - MG
18/9/2010 - SÃO ROMÃO - MG
19/9/2010 - SÃO FRANCISCO - MG
22/9/2010 - PEDRAS DE MARIA DA CRUZ - MG
23/9/2010 - JANUARIA - MG
24/9/2010 - ITACARAMBI - MG
25/9/2010 - MATIAS CARDOSO - MG
26/9/2010 - MANGA - MG
29/9/2010 - MALHADA - BA
30/9/2010 - CARINHANHA - BA
1/10/2010 - ANGICO - BA
2/10/2010 - BARRA DA PARATECA - BA

Palmerinha




por Fernanda de Oliveira
Nas Pedras, como chamam os moradores locais se referindo a cidade Pedras de Maria da Cruz , nosso destino tinha passagem certa pelo Quilombo Palmerinha. Parceria de longa data pela constante relação com o quilombola Agmar, que conhecemos desde o Cinema no Rio São Francisco de 2006. De lá pra cá trocamos muitas correspondências, visitas e ajudas mútuas, na função pela cultura e pela manifestação da diversidade da gente.

Outro rumo certo foi o encontro com quatro senhorinhas, todas ancestrais de Palmerinha, na casa da sobrinha Neide, prima de Agmar, liderança da Pastoral Negras de Pedras de Maria da Cruz e do Reis das Pastorinhas, do qual fazem parte as quatro senhorinhas: Marcelina (78 anos), Maria (77 ), Isabel (74), e Maria da Conceição, a Bié (75). Todas mulheres cantadeiras e batalhadeiras nessa vida de tanta luta . Mudaram-se do quilombo há cerca de 20 a 50 anos, todas elas por necessidade de atenção especial à saúde. Coisa que mesmo na rua – como chamam a cidade – não é fácil conseguir. Quanto mais em Palmerinha, desassistida das autoridades que, tradicionalmente, atribuíam a todo lugar habitado por índios e por negros, um vazio demográfico. Estratégia de invisibilização dessa gente forte. Política social e econômica para restringir qualquer distribuição – de renda, de força, de acesso a auto-determinação.

Cantaram e cantaram suas lembranças de roda, de batuque e do Reis das Pastorinhas. Folgaram conosco, generosamente, oferecendo ao registro, seus encantos de gente velha e sabida que conhece e faz seu próprio tempo. Ficaram felizes pela sua participação no vídeo da cidade. Felizes conosco e com Agmar, o sobrinho que é “o único que considera a gente como gente”, reforçou dona Bié, na sua condição de idosa, negra e mulher, condições muito adversas nesse mundo reservado aos jovens, brancos, machos e proprietários.

Em Palmerinha fomos recebidas por Seu Dão, o João Gualberto (cerca de 74 anos), e seu irmão Domingos (76). Desde de 2007, quando conhecemos Seu Dão, ele manifestara muita vontade de participar de uma filmagem para “falar assim do tempo de antigamente”, das “ profissias dos antigos”, dos encantados d’água... Lavrador e pescador, muitas vezes canoeiro, Seu Dão conhece do rio, um tanto. De até encontro com o caboclo d’água, ele mesmo na sua feia figura: “um pretinho, baixotinho, esquisito, mal encarado, que queria virar meu barco e me trazer um prejuízo”.

Da voz das profissia, Seu Dão enfatizou aquela que dizia de um tempo em que surgiria uma cobra grande, enorme e preta, sem começo nem fim, que devastaria o mundo enchendo-o de coisa ruim: essa cobra devia de ser o asfalto. A rua preta, escura, por onde passa tanta coisa boa, mas tanto mais coisa malina, veneno de alimento, bandido ferino, doença, impaciência, desvario. “Cobra que a gente não sabe onde começa nem onde termina”. As professias.

Dessas histórias, a comadre Cidelcina (66), sabia um tanto e quis contar pra gente. No princípio resistiu a filmagem, pois que não se sentia a vontade em ser gravada para sempre. Mas foi se envolvendo na conversa, na sedução de vincular-se a gente alheia, de fora e longe. “De onde eu vim, não sei. Porque eu não perguntei. Só sei pra onde eu vou.” Contou da sua vida, a Cidelcina. Da filha nascida que foi sua boneca, uma vez que tornou-se mãe bem jovem. E que, de criança, a mãe lhe queimara as bonecas tão estimadas, porque julgava que o brinquedo lhe desviava da obrigação. Brincou de boneca até os 14 anos. Bordava ela mesma toda a roupinha das bonecas.

“Hoje minha filha diz que eu já era. Que sou velha. A gente é da era. Mas sabe mais do que esses jovens de hoje, Que sabem das letras mas não sabem da vida. Eu sou da era, e sei mais do que você. Penso melhor do que muitos estudados. Não se defende com a leitura. ”

Teve também senhor Feliciano (76), um rezador de qualidade, pai de 22 filhos, rimador,poeta e filósofo popular. “A brincadeira, naquela época, não tinha decepção”. Aquela época, diz-se da juventude de Feliciano, quando o divertimento maior era “quebrar as cadeiras das meninas” na dança de um forró arroxado. “Leitura, eu não tenho. Mas sou respeitador”. Desde criança, Feliciano assuntava a reza dos mais velhos, ouvia tudo com atenção e sentia que era aquele um seu destino. Além dos tantos outros fazeres que hoje desfia pela sua memória, olhando à distância, sua obra desenvolvida pela vivência curtida. ‘Aprendi com meu próprio assunto. Se você não assunta, você não aprende, não”.

quarta-feira, 1 de setembro de 2010

“É no cinema? Eu quero ver!”


Por Fernanda de Oliveira

Cidade das praças coloridas, lugares públicos encantados com as esculturas cravadas no chão, representações de bichos nativos e encantes do Rio. Um caboclo d’água, uma arinhanha, uma anta, uma onça, uma mãe d’água: tornaram-se todos encantados, feitos agora monumento, pela raridade de sua presença no ambiente atual, poluído e alterado.

Nas ruas de Itacarambi, Minas Gerais, sob sol quente, retratamos o cotidiano citadino: um vendedor de melancia, um jardineiro, uma menina de bicicleta, outra bicicleta e mais outra. Um senhor de 110 anos de idade, ativo de memórias, tomando um fresco na porta de casa. Maria, catadora de material reciclável – entre plástico e metais. Alcança de R$3,00 a R$5,00 por dia, rondando a cidade com sua carrocinha de recuperar o imprestável. Contou que na juventude, havia migrado para São Paulo, trabalhando muitos anos como doméstica. Sem alcançar o devido progresso, preferiu retornar à terra de nascida. Ao menos, um lugar que é seu. Pode senti-lo a cada passo no chão firme de poeira e vento.

Visitamos uma grande fábrica que emprega muita gente da cidade e cuja atuação promove significativo impacto econômico na dinâmica local. Os funcionários são homens e mulheres, em grande parte jovens, deslocados das atividades do campo, para o setor industrial: tudo muito rápido e constante. Longa duração nervosa das máquinas ferventes, aquecendo a produção.

Ficamos sabendo do Reis das Pastorinhas, tipo de reisado cantado e dançado por senhoras e senhoras de muita idade. Membros de uma Associação da Terceira Idade, devotos dos santos católicos e de Jesus Cristo, Senhor. Tocam sanfona, pandeiro e bumbo, e representam os pastores do campo, figuras cheias de sentido para conhecedores do Evangélio Sagrado.

Contaram também da Folia do Reis do Boi Baiano. Boi baiano, porque trazido da Bahia. Introduzido em Itacarambi por uma chegante antiga, a Sá Martinha, emigrada de Remanso (BA). Semelhante ao boi bumbá, é brincadeira dançada e cantada por tantos personagens encantados: boi, mulinha, Mateus, Catirina, Zé Caipora. Sai sempre pelo mês de Janeiro, durante cerca de 20 dias, em cortejo folião, pela cidade a dentro. A mestra agora é Maria do Carmo, que nos descreveu o sistema do Boi, e nos lembrou de muitas outras brincadeiras, brincadas pelos negros do antigamente: lundu, cana- verde, batuque, contradança... Tantas importâncias sociais cujo rendimento, coletivo, é prazer e alegria.

“Ô minha caninha verde
Ô minha verde caninha
Eu não vou na sua casa
Pra você não vir na minha”

Rompendo as ruas de Itacarambi, fomos chamados pelo som frenético de uma Fanfarra da Escola Municipal Carmem Maria Andrade Nogueira. Cerca de 50 jovens de ensino médio tocando percussões e metais vibrantes, preparando-se para o tradicional desfile da celebração civil do Sete de Setembro. Ao verem a câmera atenciosa ao seu movimento organizado, os jovens ficaram completamente envolvidos, e reanimaram sua performance com entusiasmo pela possibilidade de aparecerem no vídeo da cidade.
- “ Vai passar aonde, isso?”
- “É no cinema? Eu quero ver!”