quinta-feira, 23 de setembro de 2010

“Sem pátria, sem nome, sem lar”

Pâmilla Vilas Boas


Das Neves estava em dúvida. Quando chegamos na comunidade quilombola de Buriti do Meio com aquele monte de câmeras de filmagem, ela perguntou para Inácio. “Será que eu mudo meu nome?”. Uma vez lhe disseram que o nome das Neves remete a algo muito branco e que não combina com a atual posição como remanescente de Quilombo. Na frente da câmera ela mesma reflete. “Mas eu gosto tanto do nome. Foi minha mãe que colocou.”

Eles estavam em reunião discutindo o reconhecimento da comunidade como Quilombola. Ela é a líder de Buriti do Meio e tem consciência da importância de suas falas para os que filmam, pesquisam ou tem curiosidade de entender um pouco do cotidiano da comunidade que guarda uma história preciosa. “Tem gente aqui que nem dá pesquisa. Corre para o mato, vai para outras casas. Fala que não tá. Eu nunca neguei isso em momento algum. Desde 99 eu dou pesquisa para as faculdades pra qualquer presinho, pros doutores, pras justiça.”

Ela pediu para a antropóloga Amanda falar da importância do contato com o Incra para a demarcação das terras. De todas as comunidades quilombolas de Minas, apenas uma conseguiu o título da terra – Porto Cori, hoje sob as águas da represa de Irapé. Mas Amanda diz que, mesmo assim, a luta não está perdida. Depois foi a vez de Das Neves, que com sua espontaneidade fora do comum falou da importância da passagem do cinema, das filmagens e dos pesquisadores. "Eu vou ficando mais capacitada", afirma.

Para conseguir o reconhecimento, Das Neves foi para Brasília e teve que contar sua história para um monte de gente. Quando chegou lá, viu uma exposição com peças da época dos escravos. Dentre elas, as máscaras que os senhores usavam para deixar os negros sem comer. Eles ficavam em jejum durante 40 dias para clarear os dentes. Das Neves se emocionou com o contato com o passado.

Depois foi a sua vez de contar a história do quilombo que começa com o rapto da bisavó que foi acorrentada e domesticada por um fazendeiro. Sua origem vem do filho que a bisavó teve com o senhor. "Ás vezes eu fiquei na posição de jornaleiro. Mais de 50 jornaleiros com o microfone ali pra eu tá falando sem tá prevenida. Claro que eu falei a verdade porque não dava tempo de mentir. O que a gente fazia, comia, o tanto que a gente caminhou, eu fui soltando ali tudo.", conta.
André Fossati


Pelo cinema

“Veio no porão dos navios negreiros em dor. Trabalhar nos engenhos de cana de açúcar. Ser escravo sem pátria, sem nome, sem lar.” Navio Negreiro é música de Toninho Terra. Toninho é músico que ganhou muitos festivais na vida, abriu show de Belchior, Zé Ramalho dentre outros. Hoje abandonou o violão e custa a lembrar algumas de suas duzentas composições. Sentados com Toninho antes da sessão de cinema em São Francisco, ele tenta retomar as melodias na memória. Mas o grupo de teatro de Buritizeiro, Imagem e Contexto, não se conforma; quer levar Toninho de volta aos palcos.

Eles se empolgam falando do compositor e usam várias músicas dele nas peças. Toninho tem uma inspiração fora do comum. Compõe na hora, quando vê ou ouve alguma coisa. Suas músicas falam de temas atuais, coisas do passado, natureza e o que ais lhe vier a cabeça.

O grupo de teatro também ganhou muitos prêmios em suas andanças. Mas a falta de tempo e a dificuldade de se dedicarem exclusivamente aos palcos fez com que o grupo se separasse.

Mas o Cinema no Rio descobriu a existência do grupo e eles decidiram montar a peça ‘São Francisco vivo’ para apresentar no projeto. A apresentação que seria apenas em Buritizeiro se estendeu e eles seguiram com a gente de barco para se apresentar nas cidades do fim de semana. Infelizmente o trabalhou impediu que seguissem o rio todo. Hoje planejam apresentação em Belo Horizonte e acreditam que o Grupo vai se unir novamente.

3 comentários:

  1. Pessoal da Cinear, dou meus parabéns pelo incrível trabalho do Cinema no Rio. Estive com vocês e com a EFBH à época do encontro de cinema e literatura, no Crea-MG. Vocês brilham pelo profissionalismo e pelo carisma. Abraços, Samuel

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  2. Ola pessoal estou enviando-lhes o meu novo e-mail:galinhabispo@gmail.com celular 038-88081062 ou 038-98678409

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