quarta-feira, 1 de setembro de 2010

“É no cinema? Eu quero ver!”


Por Fernanda de Oliveira

Cidade das praças coloridas, lugares públicos encantados com as esculturas cravadas no chão, representações de bichos nativos e encantes do Rio. Um caboclo d’água, uma arinhanha, uma anta, uma onça, uma mãe d’água: tornaram-se todos encantados, feitos agora monumento, pela raridade de sua presença no ambiente atual, poluído e alterado.

Nas ruas de Itacarambi, Minas Gerais, sob sol quente, retratamos o cotidiano citadino: um vendedor de melancia, um jardineiro, uma menina de bicicleta, outra bicicleta e mais outra. Um senhor de 110 anos de idade, ativo de memórias, tomando um fresco na porta de casa. Maria, catadora de material reciclável – entre plástico e metais. Alcança de R$3,00 a R$5,00 por dia, rondando a cidade com sua carrocinha de recuperar o imprestável. Contou que na juventude, havia migrado para São Paulo, trabalhando muitos anos como doméstica. Sem alcançar o devido progresso, preferiu retornar à terra de nascida. Ao menos, um lugar que é seu. Pode senti-lo a cada passo no chão firme de poeira e vento.

Visitamos uma grande fábrica que emprega muita gente da cidade e cuja atuação promove significativo impacto econômico na dinâmica local. Os funcionários são homens e mulheres, em grande parte jovens, deslocados das atividades do campo, para o setor industrial: tudo muito rápido e constante. Longa duração nervosa das máquinas ferventes, aquecendo a produção.

Ficamos sabendo do Reis das Pastorinhas, tipo de reisado cantado e dançado por senhoras e senhoras de muita idade. Membros de uma Associação da Terceira Idade, devotos dos santos católicos e de Jesus Cristo, Senhor. Tocam sanfona, pandeiro e bumbo, e representam os pastores do campo, figuras cheias de sentido para conhecedores do Evangélio Sagrado.

Contaram também da Folia do Reis do Boi Baiano. Boi baiano, porque trazido da Bahia. Introduzido em Itacarambi por uma chegante antiga, a Sá Martinha, emigrada de Remanso (BA). Semelhante ao boi bumbá, é brincadeira dançada e cantada por tantos personagens encantados: boi, mulinha, Mateus, Catirina, Zé Caipora. Sai sempre pelo mês de Janeiro, durante cerca de 20 dias, em cortejo folião, pela cidade a dentro. A mestra agora é Maria do Carmo, que nos descreveu o sistema do Boi, e nos lembrou de muitas outras brincadeiras, brincadas pelos negros do antigamente: lundu, cana- verde, batuque, contradança... Tantas importâncias sociais cujo rendimento, coletivo, é prazer e alegria.

“Ô minha caninha verde
Ô minha verde caninha
Eu não vou na sua casa
Pra você não vir na minha”

Rompendo as ruas de Itacarambi, fomos chamados pelo som frenético de uma Fanfarra da Escola Municipal Carmem Maria Andrade Nogueira. Cerca de 50 jovens de ensino médio tocando percussões e metais vibrantes, preparando-se para o tradicional desfile da celebração civil do Sete de Setembro. Ao verem a câmera atenciosa ao seu movimento organizado, os jovens ficaram completamente envolvidos, e reanimaram sua performance com entusiasmo pela possibilidade de aparecerem no vídeo da cidade.
- “ Vai passar aonde, isso?”
- “É no cinema? Eu quero ver!”

Um comentário:

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