quarta-feira, 29 de setembro de 2010

O filme que não vi

Pâmilla Vilas Boas


"Medo de morrer todo mundo tem", disse Domingos durante a pré-produção do filme da cidade. O filme ficou sendo homenagem ao barbeiro que cortava cabelo do temido coronel João Pereira. Se o coronel desagradasse do corte, o barbeiro já não estaria mais aqui para contar a história.

Domingos aprendeu o ofício como olheiro mesmo. E exibiu as ferramentas antigas de cortar cabelo. A cadeira do antigo salão foi ele mesmo que fez. A barbearia estava lá intacta com todos os materiais que lembram um outro tempo. Domingos já não atuava mais como barbeiro, mas mantinha tudo como era antigamente. "O senhor teve filhos?", perguntamos. "Na base de uns 20. Moram nesse mundo aí”, ele responde com a voz baixa e apaziguadora. Domingos falava da sua vida com tranqüilidade, sem muitas exaltações.

Ao ver a barbearia tão intacta e tão representativa da época em que Manga era cidade pequena e em que os cortes de cabelo eram tão diferentes, o corte americano, por exemplo, a vontade é que essa imagem permanecesse para sempre. E que Domingos estivesse sempre lá, manuseando os equipamentos antigos e guardando a memória dessa profissão.

Mas o barbeiro morreu, uma semana depois das filmagens. Assim que chegamos em Manga, fomos procurá-lo para entregar o DVD com o filme da cidade e recebemos a notícia. A casa de Domingos estava fechada e a barbearia sem o seu grande zelador. A vida não é igual ao cinema e não pôde esperar o filme ficar pronto. Procuramos seus familiares para entregar o DVD que iria ser assistido por Domingos. Encontramos a irmã de criação do barbeiro: "Ele vai aparecer, mas está morto", disse. Convidamos ela para a sessão de cinema e dissemos que o filme era homenagem ao barbeiro. Procurei, mas não encontrei seus familiares na hora do filme.

Seu Antero foi, chegou bem cedo. Ele era o prático de Manga, farmacêutico e médico ao mesmo tempo e amigo de Domingos. Seu Antero parecia ansioso para ver o filme que homenageava o amigo e para se ver na telona. Ele também foi entrevistado. Com idade bem avançada, a morte não parece preocupá-lo muito. Ele fica satisfeito ao ver ele e a mulher na telona. Fica com a imagem do amigo em sua barbearia e admira Seu Tezinho; o homem fazedor de cela. “Seu Tezinho fala muito bem”, comenta Antero. A cidade deu boas risadas com o jeito bem humorado e crítico da fala de Tezinho. “Seu Domingos adorava um carnaval. Rodava feito égua no meio do povo. Hoje não roda mais”, disse Tezinho na telona, ainda sem saber que seu amigo agora é só memória.

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